Moura se apaixona (ou: Verdes ou não, quem se importa?)

 
— Pra mim um espresso curto — disse o Moura, dirigindo o olhar para a italianinha de olhos verdes sentada à sua frente. — Um capuccino — ela pediu, devolvendo o olhar e sorrindo. A atendente se afastou para pegar as bebidas, fazendo uma careta para o som crescente que vinha invadindo a galeria.

— Isso não é uma melodia, é obra de metrônomo — retomou Moura, divertido, mas fingindo irritação, com o funk que berrava de uma dessas irreconhecíveis, embora familiares, geringonças que expelem música e que algumas pessoas carregam nas ruas como se fossem uma extensão de suas esquisitices domésticas. Moura e suas declarações enigmáticas: metrônomo…

Metrônomo , diz o dicionário, é termo musical, “instrumento para medir o tempo e marcar o compasso das composições musicais” . — Isso — Moura explicou, diante do rostinho interrogador dos olhos verdes– não é música. É algum efeito sonoro registrado por um metrônomo desregulado…

–Ah, não liga, vai — ela o interrompeu. — Se quem canta, seus males espanta, quem escuta, seus males assusta — continuou, os dentes brancos lindos em contraste com o vermelho dos lábios finos em gracioso desenho.

Moura sorriu. Gostava dessas tiradas dela, a italianinha, como ele a chamava. Achava-as encantadoras, as tiradas, e também a mulher que as enunciava. Observou ainda uma vez a beleza daqueles lábios, dos dentes, da pele, do verde abusado dos olhos coroando majestosos as outras cores menoresdo conjunto. –Você é uma sedução de cores — disse, já agora devorando-a com os olhos. Moura sabia que ela gostava, por sua vez, dessas “frases poéticas” dele, e teve confirmação disso quando ela disse, o olhar dentro do dele: “Amo esse seu olhar faminto, adoro essa sua fome”. Moura acariciou-lhe as mãozinhas e beijou-as num gesto rápido. Sabia que estava apaixonado, que a queria com sofreguidão, que a desejava toda-inteira: essa a fome a que ela se referia.

A essa altura o sujeito que passara com o aparelho sonoro em alto volume já ia longe, a paz voltava a reinar no quase silencioso e discreto Café, onde tomavam a bebida do mesmo nome, numa galeria do centro da cidade. Estavam sentados em uma discreta mesinha lateral. Desde que se conheceram, alguns meses antes, tinham tomado já vários cafés naquele local, que se revelara adequado à discrição que ambos buscavam. No início, Moura relutara, mas agora admitia abertamente para si e para o mundo: estava a-p-a-i-x-o-n-a-d-o, inapelavelmente seduzido pela italianinha. E, até onde podia perceber, o efeito era recíproco. Ela, formada em filosofia, doutorava-se agora, mas mantinha o frescor de quem iniciava os estudos, e ria mais que outra coisa quando estavam juntos. Conhecera Moura em um evento pela preservação de um velho casarão, que seria transformado em estacionamento. Atraíram-se pelos gostos em comum; em pouco tempo correspondiam-se; em tempo menor ainda, saíam juntos.

 “Às vezes me pergunto: por que filósofa, se com olhos verdes?”, Moura disse, rompendo o longo flerte que se estabelecera entre eles e aproveitando a deixa da garçonete que servia o café nesse instante. Ela o olhou, divertida, interessada, desejosa de saber o que viria depois. Deu um longo gole e deu sequência à brincadeira, a xícara em frente à boca: “Por que olhos verdes, se filósofa?”. — Lembra disso, a Eugênia — ia Moura começando a dizer, interrompido por ela: — Eugênia? Quem é Eugênia?
Moura sabia que a italianinha era muito, muito ciumenta.

–Aquela, que se era bela, por que era manca? Ou que sendo manca, por que era bela? E Moura contou, com aquele jeito empolgado com que sempre fala de autores e livros, que Eugênia era uma personagem machadiana que se prestava a uma aguda reflexão, carregada de ironia, sobre o modo pelo qual a sociedade privilegia a casca, a aparência das pessoas e não…
— Nossa, que coisa mais cruel — a italianinha o interrompeu. — Mas a propósito, tenho uma surpresa. Quer ver? Mas antes, me diga, que dia vamos ler juntos…
Foi a vez de Moura interrompê-la: “Surpresa, qual surpresa desta vez?”, Moura sabia que as surpresas dela eram, em geral,  resposta ao ciúme provocado.

Foi quando ela, num gesto gracioso e compenetrado, abaixou ligeiramente a cabeça, passou os dedos pelos olhos, primeiro o indicador da mão direita no olho direito, depois o indicador da mão esquerda no olho esquerdo, e, segurando na ponta dos dedos as lentes de
contato, olhou com firmeza na direção de Moura.

E ele viu, pela primeira vez, a cor real dos olhos da amada. Abriu e fechou a boca, como se não quisesse acreditar, quis sorrir, pôr a mão, beliscar, sei lá. Não fez nada disso, só ficou olhando. Não que não desconfiasse, ela já havia se referido vagamente a isso, ao uso das lentes de contato. Mas o que era verde, não era. O que era, verde não era.
–Duas jabuticabonas, dois olhos pretos, dois sóis negros –Moura disse por fim. E acrescentou: –São inacreditavelmente mais… (nesse momento o rapaz do funk irrompeu de novo na galeria, e o fez tão ruidosamente, que tornou-se momentaneamente inaudível a fala de Moura)…que os olhos anteriores. “De pigmentação escura ou de pigmentação verde, a íris dela vê o mundo de que cor?”, Moura deve ter se perguntado meio filosoficamente então, porque virou-se para ela, a italianinha dos olhos da noite, e disse, naquele seu jeito metafórico-subjetivo de dizer as coisas: “Mas manca é melhor que não-manca. Só não entendo por que…”.

Não pôde continuar a falar porque a italianinha, ao tempo em que guardava as lentes numa caixinha dentro da bolsa, o interrompeu, dizendo por entre um sorriso que exibia o branco mais maravilhoso dos dentes: “Tem mais surpresas. Quer ver o resto agora?”.

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Feira livre, limpeza de pele e coração

Moura, rosto reluzente de limpo, com uns pontos avermelhados, parecendo um pouco inchados, dizia, com aquele seu jeito de enunciar as coisas mais simples como verdades universais: — Fiz uma quando fui conhecê-la, nada mais justo que fizesse outra agora, ao terminarmos.

Pisquei uma e duas vezes, como em geral faço quando escuto algo que não pego de imediato, mas como Moura apontava para o próprio rosto enquanto falava, concluí que ele se referia à limpeza de pele.

Vocês devem ter reparado — como eu — que Moura andou meio sumido. Na verdade, até reencontrá-lo nesta manhã de domingo, não fazia ideia do paradeiro de nosso amigo.

— Bem, ficou mais leve — brinquei, fazendo referência à limpeza do rosto. — Mas o que isso tem a ver com conhecer e terminar com ela?

— Ora — Moura fuzilou-me com o olhar –, óbvio. Se funcionou para o início, por que não funcionaria para o fim?

Olhei bem para seus olhos para ver se captava neles alguma galhofa, algum humor, mas não, Moura falava sério. Fiz-me igualmente sério: — É como um rito? Um rito de passagem? Uma forma simbólica para ajudar na superação de…

Rites de passage, repetiu em francês o culto Moura, me interrompendo. Sua voz rascante (pensaram no locutor da TV, quando se refere ao Leo Batista, amantes do futebol? risos) trovejou por sobre o burburinho geral: — Você disse algo certo, não tinha pensado nisso, mas é verdade. Rites de passage. Um batismo, um enterro, os dois juntos, continuou com o olhar perdido. Súbito, virou-se, pegando um jiló, vários deles, e apontou-os em minha direção, como dardos de ponta curva, e murcha: — Você sabe como se escolhe jiló? Sabe? Não basta apertar pra ver se estão duros e se prestam. Jiló não é como gente e se não tem osso, também não tem emoção.

Moura deve ter enlouquecido, pensei comigo mesmo. A dor da separação deve ter afetado seus miolos. Acho que não falei para vocês que estávamos na feira da Avenida Brasil, gente pra todo lado, a turma das barracas trabalhando febril para atender a toda a clientela. Encontrei-o aí por acaso, enquanto escolhia manjericão fresco para um pesto para a pasta do almoço…

Mas Moura já havia pagado os jilós e, sem esperar minha reposta, caminhava rápido para outra barraca de legumes. Belas cenouras, berrantes beterrabas, austeros pepinos…
— Ah, esses se deve comer cru, disse para mim, sob o olhar curioso do feirante. E continuou a falar, enquanto escolhia com capricho o que ia levar: — Foi tudo tão rápido quanto comer cru, como dizem que o apressado faz. Mas tudo muito saboroso, como só a degustação apaixonada, in natura, permite…

Moura estava ficando daquele jeito que conhecemos, quando começa a falar como se estivesse em transe. — Acredita você que, no Porto, serviram-me o amor como dobrada fria?

Estávamos agora em frente à barraca de carnes, um imenso balcão frigorífico que mais parecia uma casa de horrores. Imagino que quem ouvisse aquilo pensaria que meu amigo estava realmente ruim da cabeça. Ou do coração, vá lá, mas ruim de qualquer jeito. O olhar do rapaz do balcão disse tudo, quando Moura repetiu: — Dobrada. Dobradinha. E era à moda do Porto. O senhor já viu alguém servir dobrada fria?

Moura havia estado de fato em Portugal, no ano anterior, e havia feito um roteiro ao sabor de suas referências culturais e literárias, e as afetivas e pessoais, se é que não se confundem todas, segundo penso. Sem dúvida essa é sempre a melhor viagem na viagem.

O moço do balcão riu, entregando o pacote com as carnes e dizendo que fria não dava para comer. Moura, trocando um olhar cúmplice comigo, já agora se divertia, falando como se somente nós dois ali conhecêssemos o poema de Fernando Pessoa, cujos versos repetia: — E ainda impacientaram-se comigo, no restaurante. Ah, nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Mas se pedi amor, porque serviram-me dobrada fria?

Moura deu o dinheiro ao rapaz, que agora não sabia se ria ou não, visivelmente achando que Moura era mesmo maluco. E certamente não teve mais dúvida quando ele, carregado de sacolas, esbarrando nas pessoas, empurrando a multidão, enviesou aos trancos e barrancos por uma ruazinha lateral em busca de um táxi, o rosto claro avermelhado pelo sol.

E, já quase sumindo de nossas vistas, em meio ao seu tumultuado percurso, berrou para mim, para nós, e para quem mais quisesse ouvi-lo: — Ficou bom o meu rosto? Tá dando pra disfarçar? Fiz uma antes, precisava fazer uma depois. Mas se pedi amor, por que é que me serviram dobrada fria? E era à moda do Porto, ainda repetiu, desaparecendo de vez.

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Será que você vai se divertir?

Ao lê-los, tanto quanto eu, ao escrevê-los? São acometimentos poéticos, como diz o Moura, sem aspiração nenhuma à galeria dos não-efêmeros. Estão naquela categoria das vocações não realizadas do Pestana machadiano. Ora bolas, nem por isso deram-me menos prazer intelectual em sua composição. Espero que você o tenha em sua leitura, hipotéticos leitor e leitora; que os obtenha, prazer, em sua, nossa companhia. Bom divertimento. Em acréscimo, se se fizer acompanhar de um bom vinho, e embarcar na onda compositiva de cada texto, ser-te-ão, creia-me, agradáveis como aperitivo, para depois encarar um Iacyr, um Fiorese, um Edmilson, um Polidoro, um Mutum, apenas para ficar em uns poucos da prata da casa. Como diz minha amiga Flavja Biju, uma das grandes vantagens de se ter um blog é a plena possibilidade de escrever pelo prazer da escrita. Bon voyage!

Aí vão alguns acometimentos (ao modo primeiro como foram compostos, assim sem necessárias modificações posteriores, como convém a um espaço como esse) feitos a partir de algumas preferências do autor pelo mundo das artes, obras e artistas; pelo mundo no qual vivemos, pelas coisas mundanas e etc, etc.

1 restauro
2 dança
3 três perguntas a Pedro Guedes
4 Machado de Assis (fragmento)
5 de avental e descalço, no ateliê
6 xadrez
7 tartaruga marinha

.
restauro
À Martha e ao Max

 

trabalho silencioso sobre a eternidade,
cinzel no rosto sob a máscara,
suor e compasso nos grãos de areia

será vidrotil de ampulhetas coloridas,
ou mosaico de paixões por vir?
(à hierarquia do vento,
sussurra o pó na calçada)

é quando o homem pergunta:?
e em resposta
o tempo passa gel de cobre
em seus apelos.

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dança
pro pessoal do Cos’é

 

a menina bailarina
gira, rodopia pelo chão

artesã do movimento,
premedita os segundos com os pés
e cava o espaço com as mãos

dito assim, onde a magia
do corpo que transcende abismo e tempo
no lapso do olho que a via?

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três perguntas a Pedro Guedes,
pintor

 

1
quem ensina
às minhas retinas
que o que vejo
é sal ou sina?

2
quem me vê,
na obra que teço,
vê o que vê
ou o que em mim desconheço?

3
no que sou risco e traço,
subverto o foco do olho
ou fragmento em terremoto de cores
o corpo do mundo onde não alcança o abraço?

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Machado de Assis

conheço o açoite por seu lado doce
entre cabo e lâmina(s)
situei minha escritura

bruxo? nem tanto,
se minha alma, humana,
à divina não enchesse,
de espanto

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de avental e descalço, no ateliê

sol de verão
sem os raios:
um olho de Klee

mangas verdes com palitos
brinquedo no quintal:
silhueta de Picasso

gengiva de abóbora
dentes talhados à faca de cozinha:
detalhes de Miró

tomates e pimentões
em amarelas frigideiras (também sopeiras em geladeiras):
instalação de Warhol

facas derretidas sobre pães
cabeças nos queimadores dos fogões:
aromas de Dali

cotidiano e seu tributo
ao seu sensível oculto
na arte exposta dos mitos

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xadrez

se em cada movimento me contemplo
e, caçador de moinhos, movo mais que vento,
aguardo, no desenlace de cada partida,
a queda lenta, aposta rara com o tempo,
que a asfixia do relógio anuncia

cavaleiro de torres altas e sabidas,
abro mão de tendências suicidas
e busco encontrar nas colunas e fileiras
o sutil desprezo dos peões pelo tabuleiro

mas soberano das vestes ricas e não vistas,
cortejo aquela por quem tem mais cobiça
o servo bem mal pago de Caíssa:
a dama que desposa o jogador
da batalha em que, para ganhar,
é forçoso deixar perder a vida

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tartaruga marinha

(no noturno píer da Orla Bardot, com dor de cotovelo)

 

no vaivém das ondas lentas,
vem, vagando sozinha,
tartaruga marinha

sombra líquida errante,
vagando marinha,
tartaruga sozinha

não sabes de mim,
teu fito é ser sozinha,
tartaruga marinha

não és de ninguém,
(és de todos e não és minha),
tartaruga marinha,
tartaruga sozinha.

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Meu conto de Natal

Havia um vulto atrás da janela.

Sempre há um vulto atrás da janela.

Sempre houve um.

Sim, ao longo de minha vida, sempre observei alguém espiando a rua, ou sabe-se lá o quê, por trás do vidro de uma janela. Não que isso se revelasse de modo explícito à minha observação. Antes, era uma descoberta gradativa, algo que vinha se impondo à consciência de maneira sutil, imperceptível a princípio, até ocupar toda a tela de minha mente e olhos.

Às vezes acontecia de eu estar parado no sinal, esperando passar o fluxo de pedestres, ou carros, e percorrer com o olhar distraído os prédios e casas ao meu redor. Também podia estar com o carro parado, namorando, ou falando ao celular, ou teclando, ou esperando alguém.

Mas andando a pé, caminhando, era que eu o encontrava mais amiúde. Aí é que ele aparece com mais frequência.

Ele, o vulto.

E sempre com o olhar esgazeado, triste, desesperançado. Sempre muito vivido, embora também por vezes adolescente. Sempre triste. Sempre sem distinção de gênero, ele, o vulto, ou ela, o vulto: ele ou ela, que importa? Importa que é o vulto, um vulto.

Tentem fazer a experiência. Parem o que estão fazendo e olhem ao seu redor. Duvido que não se deparem com alguém espiando a rua, que digo, espiando a si mesmos com o olhar voltado para a rua. Em geral, com a testa colada na vidraça; alguns também com o pescoço ereto em digna atitude, outros até com o rosto para fora da janela, os cotovelos apoiados sobre o patamar das dores do mundo.

O vulto não se confunde com o casual olhador da rua, aquele que a olha com satisfação, indiferença, ou por não ter motivo algum para isso.

O olhar do vulto atrás da janela é sempre um olhar intencional, carregado de busca, de desejo do encontro.

Encontro daquilo que foi perdido, busca daquilo que não retorna, intenção de reatar o sentido da vida.

O vulto não tem hora para aparecer: logo cedo, pela manhã, quando vamos trabalhar, ou fazer uma caminhada. À hora do almoço, ou à tardinha, quando o sol vai se pondo. À noite, quando estamos vendo novela. De madrugada, quando estamos dormindo.

O vulto na janela não dorme. O tempo parou para ele, as horas são um interminável arrastar-se, sem princípio, meio ou fim. O vulto não acorda, não cochila, não descansa, não morre.

O vulto morreu há tempos.

Morreu na vida perdida, na demissão irrevogável, nos pais que já não existem, nos filhos não nascidos, nos amigos que já se foram, no amor que não chegou, na infância não havida, na saudade sempre parida, nas flores emurchecidas, nas cores enegrecidas.

Como é sempre triste o vulto na janela!

Então, um dia desses, eu andava pela rua, entupida de gente fazendo compras, com um calor insuportável, o trânsito congestionado, as pessoas enlouquecidas pelo clima presenteador do Natal, quando esbarrei com o Moura, velho amigo de escola.

Como que adivinhando o rumo de meus pensamentos, Moura apontou-me uma senhora, discretamente situada em uma janelinha de um apartamento, que parecia olhar o movimento da rua sem vê-lo, o olhar perdido em algum infinito… Moura tem essa característica esquisita: costuma me encontrar e sai logo falando de algum assunto, como se estivéssemos já em um longo papo. Aí, lá pelas tantas é que se lembra de me cumprimentar e tal. Figuraça, esse Moura.

“Olha que mulher infeliz! Veja bem, só o vulto dela já sugere tristeza sem fundo. Coitada, não te dá vontade de ir ajudá-la, perguntar se podemos ajudar? Ihh, ela está chorando!”.

De fato, a mulher do olhar cada vez mais perdido, desamparada, agora chorava… Subitamente, no entanto, desapareceu da janela. Antes que pudéssemos conjeturar onde teria se enfiado a pobre dona, eis que ela aparece na rua, saindo da porta de seu prédio, o andar resoluto, não obstante a avançada idade. Não sei se disse para vocês que a janela ficava no primeiro andar.

E aí, o louco do Moura puxa-me pela manga, dirige-se à senhorinha e pergunta se podia ajudá-la, se estava triste por algum motivo que pudéssemos, de alguma maneira, amenizar.

Bem, acreditem se quiserem¸ ela abriu um largo sorriso, os olhinhos ainda brilhantes das lágrimas recentes, fez um carinho com a enrugada mãozinha na barba do Moura e disse: “Obrigada, meus filhos, pela gentileza, cada vez mais rara — como maçã sem bicho –, nos dias de hoje”. Deu uma risadinha e continuou: “Não poderia estar melhor, vejam! Lá vêm meus filhos e netos. Passam o Natal e o Ano Novo comigo. Estava preocupada porque não os via da minha janela, eles já deviam ter chegado. Mas quando os vi, não contive as lágrimas de alegria!”.

Fez uma pausa e arrematou: “É uma felicidade só, a casa (pequena, observação do narrador, para dar ares de contemporaneidade à prosa) cheia de gente, a mesa posta para a ceia (modesta), os presentes (lembrancinhas de R$ 1,99), os risos das crianças (uma barulhada infernal), o brinde (vinho de garrafão) e os cumprimentos à meia-noite, as crianças exultantes com os brinquedos novos. Ah, como estou feliz! Vejam, aí estão!”.

E correu a abraçá-los, os netos a pendurarem-se em seu frágil pescoço, os filhos a rodeando de mimos e carinhos, as noras e genros só sorrisos (sinceros como nota de US$ 3,00). Antes de entrar, ainda arrumou tempo para virar-se para nós, eu e Moura, ambos com cara de alface, e gritar com sua vozinha anciã: “Feliz Natal! Que o de vocês seja feliz como o meu, Feliz Natal!”.

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Passar café e a alma

Gente, passar um café, ao levantar, manhã cedinho, e sentir seu aroma se espraiando pela casa pode ser o melhor antídoto contra um banzo amoroso ou uma derrapada depressiva. Um grande animador de espírito, melhor que qualquer comprimido jamais aportado às prateleiras de nossa ansiedade. Querem ver?

Eis aí a experiência de Moura, aguardando ansioso por notícias da namorada, após briga feia. Moura, nosso conhecido, faz um relato em primeira pessoa à modo de ficção e eu o publico com a devida aquiescência de meu amigo (“Você não cansa de me publicar não? Público é você, não eu”).

Vai lá, Moura, pega a palavra:

“Ao acordar, nem cedo, nem tarde, na manhã de segunda-feira, nublada, chuvosa, pensei: que faço, se não encontrar no celular sinal de vida dela? Sinal de vida, em tempos atuais, quer dizer: um SMS, um e-mail, um post no twitter ou no facebook (tudo bem, no velho orkut), uma ligação perdida que seja. Ao menos uma frase, ainda que curtinha, no MSN, isso ainda existe?

Nada.

Imagine-se você, querida leitora, amigo leitor, na situação: a telinha te encarando, sem um iconezinho de mensagem, uma cartinha, uma linhazinha azul no e-mail. Nada. A tela fria, impassível.

Impossível, você pensa. Alguma coisa deve estar errada. E você refaz todas as operações de descarrego novamente: nenhuma mensagem nova, nenhum sms… Será que esse troço tá funcionando, você duvida, deixa testar: alô, mãe, tá, tá tudo bem sim, liguei só para ver se tava funcionando, beijão.

É, nada, nenhum sinal de vida! E aí? Você ainda nem escovou os dentes, o dia inteiro pela frente… Segunda-feira corpulenta, cinzenta, comprida, infinda…

Então como se estivesse no piloto automático você vai para a cozinha e começa a ferver água. Na chaleira. Como nossos pais. Escalda a garrafa térmica, essa teimosa que sempre nos contraria, esfriando o seu interior para não aquecer o nosso. Monta o suporte para o filtro de papel. E começa, triunfal, a derramar a água sobre o pó de café (o pó da derrota, você pensa, o pó da dissolução, o pó para o qual havemos de voltar… Cruzes! amantes em decepção são sempre mórbidos assim?).

Passar café. Tem-se a sensação de que o mundo, ao ser feito, não levou mais que o tempo desse breve ritual iniciado com a fervura da água. Sim, porque a alma, essa ferve desde a ruptura dos amantes e quanto mais ferve mais nos evapora.

Passar café. Imaginem se no lugar da maçã o fruto da sedução fosse o café. Adão e Eva com grãos para moer, água para aquecer, suporte para coar… Sei não, acho que não ia rolar. Bem, talvez depois. Que tal reeditar o dito atribuído a Brigitte Bardot? Uma moída antes, uma fervida durante, um café depois.

Bem e aí? Você estava passando a água fervente pelo pó. Bem, aí que, aos poucos, mas logo ganhando volume, vem a invasão do perfumado aroma em nossas narinas. E logo ali está o café pronto, obra completa, ópera aberta! Um café forte, revigorante, energético, espelho do que você quer para si mesmo. Sim, você foi capaz. Você realizou a proeza de driblar sua angústia amorosa e iniciar sua jornada diária! Veja bem: você a iniciou não como se nada tivesse acontecido, MAS COMO SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO! Crucial diferença. Ah, vitória das vitórias, aquela ingrata (ou aquele ingrato, minha prezada leitora) não esperava por isso! Passei um café, que digo, passei O CAFÉ!

E pode parecer pretensioso, mas para você foi como construir uma estação espacial, sozinho e flutuando no espaço, com aquela cordinha que liga o astronauta à nave-mãe, esgarçando, arrebentando, ficando fininha, pronta para te deixar para sempre perdido no universo… Ah, medonha metáfora dos amores em desalinho.

Bem, se por perto tiver um radinho… Ah, se a Rosa esqueceu seu radinho na tábua de passar roupa e você vai lá e o liga… Ah, aí você abre um largo sorriso na boca interna de seu ser, ao som aleatório do radinho de pilha (se for um pagodão bem dramático, falando da volta por cima sobre aquela cachorra, melhor ainda). E você se diz, indo para o banheiro, finalmente forte o suficiente para escovar os dentes: pode vir, segunda-feira, e todas as feiras da semana. Passei o café, yes, I can!”

Eis aí o relato do Moura, vocês concordam com ele? Esse cara… Bem, Moura, passar o café ajuda a superar o desatino amoroso, aprendemos. Também moer a alma, escaldá-la, tudo bem. Mas pagodão…

E nosso amigo também se esqueceu de contar um pequeno detalhe: ele não bebe café…

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Cinzas seminais

 

 

 

Ontem pela manhã estava atendendo uma pessoa no gabinete e o celular dela tocou, mas tocou tão alto, que o susto que a própria dona tomou conseguiu ser maior que o meu (e minha suave irritação ao compeli-la a atendê-lo). Ela se desculpou, desligando o aparelho, e comentou que desde criança se acostumara com a campainha alta dos telefones, eis que seus pais eram meio surdos e o telefone da casa de sua infância mais parecia uma charanga em sábado de carnaval.

 

 Pensei com meus botões que os telefones antigos, bem mais antigos, tinham o grave defeito de deixarem cair a linha, além do trabalho hercúleo de consegui-la junto à telefonista. E ia dizer que evoluímos, quando minha interlocutora disse que imaginou que o celular “não pegasse aqui, afinal não pega em tantos lugares”. Engoli meu comentário, pensando que, de fato, tem sido corriqueiro escutar queixas das pessoas sobre a ausência do sinal dos celulares em vários locais da cidade… Bem, evoluímos, pero no mucho.

 

Vencidos os dois parágrafos acima, vocês repararam como o itálico apareceu várias vezes? Vocês tinham realmente reparado, ou isso estava ali meio em stand by na consciência de vocês? O que vocês acham dele? Vocês gostam? Vocês costumam usá-lo? Vocês o acham assim meio fininho,desengonçado,ou aocontrário, sóbrio, elegante? Vocês viveriam sem ele, o itálico?

 

 Eu definitivamente não viveria. Meu reino por um itálico! Que sufoco é produzir um textinho, por mais despretensioso que seja, mesmo mensagem em celular, e não poder usar o itálico. Parece que mutilaram a humana capacidade da linguagem, que esfacelaram nossa ferramenta mais elementar de comunicação, que nos deram uma caneta que só escreve as palavras pela metade. Exagero, eu sei, vocês vão dizer. Mas acho que prefiro ser condenado a ter o vocabulário reduzido que a ficar sem ele.

 

 Como a história daquele político, doublé de poeta, ou o contrário, que, ao escrever um comentário sobre determinado acontecimento candente da vida de sua cidade, um incêndio descomunal, foi acometido de súbita crise de consciência – e de ofício – ao fazer o seu registro de forma poética. Estou falando de mim mesmo (e aqui acrescentaria, ao modo do linguajar twitteriano, o trejeito rsrs).

 

Como se tudo não fosse poético, devo ter pensado então.  Como se as palavras se segurassem, fiéis a esse ou àquele discurso. Como se os homens devessem ser julgados (devem ser entendidos!) pelo modo como falam e não pelo que falam. Como se o terno cinza da atividade política não pudesse ser também transformado em destroços e cinzas pelo poder da palavra. Do fogo da palavra.

 

Sim, porque tudo é, no fundo, uma questão de uso do itálico, tudo uma questão de colocação das palavras em seu contexto. Se digo, num momento de emoção em tempo real, – talvez a grande inovação positiva das redes sociais, essa de permitir a interação coletiva da emoção em tempo real – que estou torcendo para que as consequências sejam menores que as labaredas; os danos, menores que os enganos. E que o trágico, ao beirar o belo das cores das chamas lambendo a noite tensa, nos faça lembrar que tudo que é sólido literalmente desmancha no ar. Força e agradecimento aos profissionais que arriscam a própria pela vida alheia!, onde está a poesia, onde a não-poesia?

 

 E, no entanto, acreditem, quase morreu de bronquite, o pobre escriba, e quase foi ao linchamento público porque, político que é (está!), deu-se a condensar sua emoção partilhada em poesia. Poesia? Ah, dialético incêndio que, com suas labaredas, conseqüências, danos e enganos, sua comoção e sua emoção inflamada, nos trouxe, de suas cinzas, bem mais que lições: tornou-nos mais fraternos, mais próximos, mais irmanados pela preocupação com o outro.

 

 Não, definitivamente, não. Queimem tudo, deixem vir as cinzas. Mas não mexam com o itálico.

Combinados?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Na garagem, com Beethoven

 

 

Falar, abrir o verbo, expor o que vai pela alma é uma atitude feminina, escuto com frequência. Escuto também que os homens falam menos, se abrem menos e por isso mesmo são mais tensos, estressados, enclausurados em suas encanações, incapazes de se mostrarem por inteiro, bombas prontas à explosão.

Bem, se isso é uma regra geral, não vale, in casu, para o Moura, nosso companheiro de viagens.

Sempre que o encontro, Moura tem falado e falado muito, além de declamar seus poemas, seus “acometimentos lítero-poéticos”, como ele os chama. E curioso é que sinto imenso interesse no que ele fala, embora o ache meio maluco, e um pouco mal humorado, para partilhar da opinião de vários de vocês, caros leitores, leitoras.

Outro dia veio com essa, após um encontro casual nosso à saída de um funeral. Sim, também morremos, nós, nossos amigos, conhecidos, parentes, vizinhos, cachorrinhos de estimação. Também morrem os amores, as esperanças, as rivalidades, o sol (eita poesia de quinta), as amizades. Bem, talvez não morram, definhem, apenas. Mas que digressão mais fúnebre, alguém vai dizer, que troço mais Família Addams! (ah, como era linda aquela Mortícia). Bem, volto ao encontro com o Moura, à saída do velório de um figurão político.

Haviam tocado a Marcha Fúnebre, aquele manjado movimento da sonata não tão famosa assim (não resisto a uma especulaçãozinha metida a filosófica: pode a parte superar o todo?) de Chopin, aquela do tan,tan,tantan, tan nan,nan, nannan, lembraram? Canto que é uma beleza… É realmente bonita, mas ninguém mais a escuta, associada que está com a iniludível das gentes. Pois bem, o Moura me puxa pela manga do terno e emenda:

— Você acha que essa rainha do carnaval baiano aí, disse-me, citando a famosa e recordista de vendas cantora, você acha que ela é melhor que Beethoven? Quis rir diante do inusitado da pergunta, mas como rir na frente dele poderia acionar seu mecanismo de vermelhidão (que os nossos leitores já sabem como funciona), preferi dizer a ele que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” e que…

“Você também é adepto da teoria de que gosto não se discute, não é? Gosto, lamenta-se, não é isso?” disse-me olhando nos olhos. E continuou: “Já lhe disse que comecei a gostar de Beethoven ainda pequeno, na garagem do apartamento onde morava com a família, e onde ficava uma eletrola, um toca-discos bem antigo, e no qual escutava os velhos LPs de meu pai. Um dia apareceu nas bancas de jornal uma coleção de música clássica e foi num desses que ouvi pela primeira vez a Quinta Sinfonia de Beethoven, tinha então sete ou oito anos, eu, não Beethoven, que já era poeirinha há séculos”. Moura estava contaminado pela cerimônia fúnebre: “Você já se perguntou quantos milhões de seres humanos vão virar poeirinha sem nunca terem ouvido um único acordezinho da Quinta?”.

Minha preferida é a Nona, Moura, comecei a dizer. Só comecei, porque ele retomou sua fala. Agora chovia fino e Moura abriu um imenso guarda-chuva preto, que me engoliu junto com meu amigo: “Desde o primeiro momento em que ouvi a Quinta, me apaixonei por ela. Um caso de amor escandaloso!”. Moura estava frenético.” Ouvia-a tanto, tanto, na solidão e penumbra da velha garagem, verdadeiro quarto de despejo e cacarecos, que os sulcos do disco foram virando valas”. E riu, coisa rara, o Moura rindo.

“Depois veio a paixão pelas outras, que fui descobrindo ao longo da adolescência. A Heróica, a Pastoral, a Nona… Com as sinfonias fiz um harém, paixões em sucessão e todas de uma vez. Deliciosa mistura de todos os vinhos em taça única! Maravilhado, encantado. Mal sabia eu o que estava por vir: as sonatas, os concertos para piano e orquestra…”.

A chuva apertava, eu já estava com meus braços encharcados, mas o Moura não se dava conta disso. Desta vez fui eu quem o puxou pela manga. Moura parou, de supetão: “E então, você acha a cantora, a carinha, melhor que Beethoven, não acha?Sabe por quê? Porque ela toca direto no seu ouvido, sem parar, e enquanto isso milhões vão-se embora sem nem saber quem foi o compositor da Luz do Luar”.

Peraí, Moura, eu disse. Adoro Beethoven e acho que existe sim uma diferença entre a arte e a cultura dos mass media, mas há também um fator subjetivo e…

Não consegui terminar. Moura largou-me na chuva, pulando uma poça e a rua, gritando para mim enquanto saltitava: “Vai chegar o dia em que a galera vai trocar a carinha da laje pelo carinha da garagem…”.

É maluco mesmo esse Moura… Alguém trocaria?

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Pote de silicone para as pontas dos cabelos

 

Eu estava saindo de uma loja de cigarros, uma tabacaria, onde entrei para ver se achava um petit cohiba para presentear um amigo. Comia um chocolate, absorto, eu, não o chocolate, que não é dado a reflexões. E de repente chega o Moura, que vocês já conhecem.

É claro que vocês já repararam que na vida nem tudo que tem importância para uns tem para outros, não é mesmo? Acontece com freqüência vermos algumas pessoas extremamente aborrecidas com alguma coisa que para nós não faz o menor sentido. E vice-versa. Custamos a entender como a pessoa pode ter-se aborrecido tanto por tão pouco, mas não dizemos nada, temerosos de ofendê-la em seu aborrecimento ou em sua indignação.

“Come chocolates, come chocolates”, disse-me, bem humorado. E, após perguntar se estava bem e tal, contou-me o seguinte:

“Minha namorada, numa bela manhã de primavera, descobriu um fio de cabelo branco – o primeiro de sua existência – desolada em frente ao espelho, enquanto penteava-se”, começou a contar-me. E prosseguiu: “– Nunca vou pintar cabelo, ela disse resoluta, quase autoritária, com aquele jeito que as mulheres têm de sentenciar, transformando os ditos mais simples em máximas inquestionáveis. Eu a olhei, surpreso. Por um lado estava solidário com sua queixa íntima da implacabilidade do tempo, por outro pensando algo para confortar-lhe pela descoberta. E disse a ela que, aquilo que ela estava anunciando de modo tão solene, não tinha para mim a menor importância: pintar ou não o cabelo era uma questão secundária, tanto podia fazê-lo quanto não. Talvez um tonalizante, mais discreto, tentei brincar”.

Moura olhou-me para ver se eu estava prestando atenção no que ele contava. E pior é que não estava. Eu estava distraído, saboreando o chocolate, observando os cabelos, ou sua ausência, nos passantes da rua ao nosso redor. Como são eloquentes as cabeças das pessoas, homens e mulheres, e seus ornamentos, os externos, que os internos nem sempre são lá muito interessantes.

Penteados para lá, tranças pra cá, gominhas aqui e acolá, piranhas, travessas, coques, varetas, canetas (também escrevem os cabelos!), franjas, puxados, cacheados, arrepiados, alisados… Louros, pretos, castanhos, vermelhos, amarelos, verdes, multicoloridos. Com mechas, sem elas, com luzes (!), ou à média luz.  Estilo moicano, nuca batidinha, chanel, Príncipe Danilo (como passa o tempo nos cabelos!). Também os chapéus, boinas, lenços, burcas (vão completando a relação aí, leitoras e leitores). E o culto supremo ao deus cabelo, por caprichos da natureza ou de seus donos, que é a absoluta ausência deles nas lustrosas e orgulhosas carecas.

Moura tirou-me de meus pensamentos puxando-me pela manga da camisa, dizendo que ia ler um poema de sua autoria, inspirado pelo episódio que acabara de me relatar.

Autorizado por ele, transcrevo para vocês. Chama-se À Lua de Fel, de Roman Polanski e é dedicado Para José Henrique da Cruz, o Mutum:

A hérnia é pequena e a dor é grande

(eu deitado pensava, imobilizado)

 – Quebrei o pote de silicone para alisar as pontas do cabelo!

(ela em pé, no banheiro falava, preparando-se para sair).

 

 –Se eu fosse um pote de silicone

poderia quebrar, mas a vertebral não!

(eu disse. Senão a morte poria seus urubus de vigia)

Mas os lindos efeitos do pote agora são visíveis,

ela é que já não presta, a coluna.

 

 – Se a nossa coluna fosse como um pote

era só trocar por um mais forte, ainda ouvi

 (um mais novo? Um monte de vértebras novas?).

 

Ela sorriu com a perversidade da inocência,

balançou os cabelos negros com as pontas lisas lindas

 

e saiu.

 

 

Moura olhou mais uma vez para ver minha reação. Eu estava ainda tentando entender o poema que ele havia acabado de ler e enquanto repassava mentalmente suas palavras, não pronunciava nenhuma. “Pareces o Esteves da tabacaria, só que sem metafísica na alma e idéia nenhuma na cabeça” disse o meu amigo, citando o conhecido personagem de Pessoa. Lembrei-me de tê-lo encontrado em um romance recente do valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis, e eufórico disse para Moura: “Ah, ele aparece, o Esteves, no romance…”.

Mais não pude dizer porque Moura, cortando o ar com uma braçada, pôs-se a discorrer sobre um monte de coisas e concluiu agitado, acho que com versos do poeta português: “Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama. Mas acordamos e ele é opaco. Com cabelo, ou sem, pintado ou não, entendeu”?

E safou-se de minha resposta, atravessando, rápido, a rua.

O atendente da loja de cigarros saiu à porta, com cara de cansado, e cuspiu no chão.

 

 

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Uma libélula vermelha

 

“Se tiramos suas asas, vira uma pimenta? Uma pimenta rubra, se nela colocamos asas, vira uma libélula?”.

Assim me perguntou o Moura, nosso conhecido de infância, quando passou por mim na rua, sábado passado. “O que te perguntei”, continuou ele, “tirei de um haicai, um pequeno poema japonês, que li num livro da Cecília Meireles. Ganhei em um concurso de redação, na quinta série, tem tempo. Escolha o seu sonho. Ocupa um lugar querido na minha estante onde ficam meus favoritos. Edição rara, certamente só encontrável em sebos. Mas para mim tem um valor incalculável. Valor de uso, oposto ao valor de troca, como queria o velho Marx”, concluiu com aquele jeito professoral que às vezes assumia.

A pergunta do meu grande amigo, feita assim à queima-roupa, deixou-me meio aturdido, mas fez-me refletir sobre o que são as coisas e o que parecem ser. E o que definitivamente não são, nem serão, por maior que seja a licença poética.

 Não, nem tudo é o que parece ser.

Vocês já pensaram em como é importante tentar perceber o que há de verdade por trás das palavras, ser crítico em relação ao que é dito e não acreditar piamente em tudo que se diz? Explico-me: já repararam que nem sempre o discurso, a fala, o que se diz, corresponde de fato à realidade?

Sempre me incomodou o fato de as pessoas, os humanos seres, usarem do verbo para afirmar algo que, ou não existe, ou é literalmente oposto ao que é dito. E tudo com a maior pompa e circunstância, a maior cara de pau.

 Imaginem a troca de gentileza entre dois magnatas, sabidamente ladrões, que se encontram num jantar de gala, beneficente, frequentado pela alta sociedade: “Admiro muito sua integridade e honestidade. Todos nós sabemos que o seu patrimônio foi adquirido com muito trabalho e determinação”. E o outro, lisonjeado: “Obrigado, amigo. Você sabe que essa admiração é recíproca”.

Ou então pensem na conversa de dois políticos corruptos: “É emocionante o respeito que Vossa Excelência devota ao tesouro público”. “Mas que nada”, responde o outro, “Fomos eleitos para isso mesmo, guardar os recursos públicos com zelo. Cumprimos com nossa obrigação”.  

Tão ruim quanto isso é quando, em solenidades, os políticos fazem a leitura daqueles discursos imensos, repletos de chavões e onde  invariavelmente aparece uma ou mais citações de escritores famosos, normalmente poetas, mas também prosadores. Imagino como devem tremer no túmulo Drummond, Pessoa, Castro Alves, Rosa, Clarice, Machado, só para citar os preferidos na estatística da verborragia. O poeta português então é campeão! Aff, não dá mais para ouvir aqueles ótimos versos do “tudo vale a pena…”, ou “sou do tamanho do que vejo”, ou “o rio que passa pela minha aldeia”, ou “a lua alta brilha”. Tem inclusive o caso de um antigo político que, ao ler o discurso preparado pelo assessor, não reparou que havia um erro de digitação, e quando fez a leitura em noite elegante e repleta, citou com grande intimidade o poeta Fernando Ressoa… Tá ressoando até hoje.

Também é assim quando vemos algum profissional medíocre jactar-se de seu trabalho: “Tenho trabalhado com competência e seriedade. O meu trabalho, modéstia à parte, é uma referência para os outros”. Isso dito por um professor que ensina tudo errado, um médico que adoece o paciente, um engenheiro que usa areia no lugar do cimento… Ah, se os diplomas revelassem seus preços…

E o pastor, cujas ações na bolsa superam os oito dígitos, pedindo o voto franciscano de vida a seus fiéis – que devem seguir-lhe o exemplo de vida despojada – através das doações que devem fazer para as obras sociais da irmandade?

Vale também para a imprensa tendenciosa, aquela que noticia de acordo com seus interesses, modulando verdades, como se a verdade pudesse ser manipulada assim.

Quando ocorre algo dessa natureza, fico me perguntando se o leitor, ouvinte ou espectador, concede o benefício da dúvida à sua boa fé. Será que ele, em algum momento pensa, ao ver a simpática apresentadora do seu telejornal favorito, se o que ela está dizendo corresponde mesmo à realidade dos fatos?  Ou pelo menos, será que ele, crédulo e desarmado espectador, cidadão trabalhador, zeloso de seus direitos e em dia com seus impostos e donativos, será que ele deixa aparecer a pontinha do ponto de interrogação – ainda que ao modo da língua castelhana, assim ao contrário ¿  – em sua cabeça?

“Então”, Moura deu-me um tapinha na cabeça, “que pensas tu, pateta?” . E como sempre, sem esperar resposta, sumiu-se na rua, inquieto, elétrico, como a libélula da pergunta.

Se botar asa, vira pimenta? Se tirar, libélula? Não, que digo? Se tirar pimenta, asa, se vermelha, libélula? Também não é isso… Ihhh, o Moura arruma cada confusão…

 

 

 

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O sapato, o tanoeiro e o embornal

Será que todo mundo sabe o que é isso, um embornal? Melhor, vocês já usaram um embornal alguma vez na vida? Ainda: vocês já viram alguém com um? E a cara da pessoa, era de prazer ou contrariedade? Era grande ou pequeno, fino ou mais grosso? Ihhh, afinal, o que fazia a pessoa com esse troço?

Algumas coisas vão sendo preteridas pelo tempo, pelos homens, suas sociedades, usos e costumes. Algumas coisas são assim criadas para certos usos e para segmentos determinados das sociedades. É próprio do movimento da vida, da máquina do mundo, não é? Também assim na vida pessoal, quantos objetos já fizeram parte visceral de nosso ir e vir e hoje já nem nos lembramos de sua existência? Certo, os mais radicais vão dizer que acontece da mesma maneira com os amores passados…

Pois assim é. Vejam o caso do tanoeiro. Tanoeiro. Dito assim, podemos até pensar tratar-se de um tipo de planta, flor: “Meu bem, cheguei. Trouxe nosso vinho preferido para o jantar e um tanoeiro para enfeitar seus cabelos”. Imaginem a felicidade da amada. Talvez alguém pense que possa tratar-se de um requintado espécimen de iguaria, algo como a trufa branca: “Amor, veja o que encontrei para ti: um tanoeiro para você se regalar esta noite”. Não faltará quem veja no tanoeiro uma combinação de ingredientes naturais exóticos, último lançamento da indústria dos cosméticos para dar à sua pele um toque de seda: “Benhêêê, veja o que encontrei e trouxe para você passar em todo o corpo”. E que tal, tanoeiro como sinônimo de roupa, digamos, de baixo, nossa underwear? “Gata, você vai ficar deslumbrante com esse tanoeiro sob o vestido!”.

É, pessoal, coisas que já usamos tanto e que ficam pelo caminho. Ficam tão ficadas que perdem para nós toda a referência que um dia tiveram. Tanoeiro já foi profissão indispensável no Brasil oitocentista, acreditem. Um belo dum fazedor de barris e coisitas que tais! Profissional requisitado e essencial para aqueles tempos: “Vai um barril hoje aí, senhora?”. “Seu tanoeiro, por favor, leve à minha casa hoje à noite algumas canecas”. Ó tempos, ó costumes. Ô barril, ô chopps!

Outro dia, Moura, velho amigo e já conhecido de vocês, contava um pouco de sua vida na pequenina cidade do interior de Minas onde nascera e fizera os primeiros anos de estudo:

“Lembra-me bem do meu primeiro dia de aula na primeira série, tinha seis, ou sete anos. Escola pública, não havia nenhuma outra. Frequentavam-na tanto os filhos dos homens de bem da cidade, quanto os mais pobres. E então entrou na sala o Erenilo, filho de lavradores, vinha direto da zona rural, da roça. Chegou alto, olhos claros e inteligentes, cabelo bem penteado, parece até que molhado do banho recente. A  tiracolo trazia um embornal, limpinho, de cor clara, uma sacolinha onde botava seus cadernos e merenda. Mas o que me chamou atenção não foi tanto o embornal não, eu que usava uma bela pasta e mais linda merendeira. O que realmente me marcou foi quando percebi que ele estava descalço e assim permaneceu em todos os dias de aula,até quando saí da escola e da cidade, mudando-me para a capital”.

Moura falou do embornal com naturalidade e com naturalidade disse a ele que provavelmente essa é uma palavra de uso muito restrito e que. . .

“Restrito, como assim restrito?”, bradou ele, me interrompendo e já ficando vermelho. Já contei pra vocês, em outro texto, sobre essa particularidade do meu amigo, enrubescer, fosforescer, quando dizíamos alguma grande bobagem. “Todo mundo usa embornal hoje em dia, só que não usamos esse nome, entendeu? É como sentencia Umberto Eco (Moura além de um erudito é amante da literatura, então não vejam nenhuma afetação em suas citações, viu, gente?): A rosa permanece sendo rosa mesmo se não lhe chamam assim”.

Quis dizer a ele que já tinha visto isso em Shakespeare, se outro nome tivesse, ainda assim perfumada seria a rosa; e também em. . . mas Moura como sempre já lá se ia, bradando de longe: “De uso restrito é o Louboutin que a princesa usou no casamento inglês”. E berrou, dobrando a esquina, o pescoço meio virado em minha direção: “Você sabe o que é isso? Já usou alguma vez na vida? Já viu alguém com um? E a cara da pessoa, era de prazer ou de contrariedade?”.

Mais não ouvi porque Moura, estourando de vermelhidão, virou a esquina.

 

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