Moura se apaixona (ou: Verdes ou não, quem se importa?)

 
— Pra mim um espresso curto — disse o Moura, dirigindo o olhar para a italianinha de olhos verdes sentada à sua frente. — Um capuccino — ela pediu, devolvendo o olhar e sorrindo. A atendente se afastou para pegar as bebidas, fazendo uma careta para o som crescente que vinha invadindo a galeria.

— Isso não é uma melodia, é obra de metrônomo — retomou Moura, divertido, mas fingindo irritação, com o funk que berrava de uma dessas irreconhecíveis, embora familiares, geringonças que expelem música e que algumas pessoas carregam nas ruas como se fossem uma extensão de suas esquisitices domésticas. Moura e suas declarações enigmáticas: metrônomo…

Metrônomo , diz o dicionário, é termo musical, “instrumento para medir o tempo e marcar o compasso das composições musicais” . — Isso — Moura explicou, diante do rostinho interrogador dos olhos verdes– não é música. É algum efeito sonoro registrado por um metrônomo desregulado…

–Ah, não liga, vai — ela o interrompeu. — Se quem canta, seus males espanta, quem escuta, seus males assusta — continuou, os dentes brancos lindos em contraste com o vermelho dos lábios finos em gracioso desenho.

Moura sorriu. Gostava dessas tiradas dela, a italianinha, como ele a chamava. Achava-as encantadoras, as tiradas, e também a mulher que as enunciava. Observou ainda uma vez a beleza daqueles lábios, dos dentes, da pele, do verde abusado dos olhos coroando majestosos as outras cores menoresdo conjunto. –Você é uma sedução de cores — disse, já agora devorando-a com os olhos. Moura sabia que ela gostava, por sua vez, dessas “frases poéticas” dele, e teve confirmação disso quando ela disse, o olhar dentro do dele: “Amo esse seu olhar faminto, adoro essa sua fome”. Moura acariciou-lhe as mãozinhas e beijou-as num gesto rápido. Sabia que estava apaixonado, que a queria com sofreguidão, que a desejava toda-inteira: essa a fome a que ela se referia.

A essa altura o sujeito que passara com o aparelho sonoro em alto volume já ia longe, a paz voltava a reinar no quase silencioso e discreto Café, onde tomavam a bebida do mesmo nome, numa galeria do centro da cidade. Estavam sentados em uma discreta mesinha lateral. Desde que se conheceram, alguns meses antes, tinham tomado já vários cafés naquele local, que se revelara adequado à discrição que ambos buscavam. No início, Moura relutara, mas agora admitia abertamente para si e para o mundo: estava a-p-a-i-x-o-n-a-d-o, inapelavelmente seduzido pela italianinha. E, até onde podia perceber, o efeito era recíproco. Ela, formada em filosofia, doutorava-se agora, mas mantinha o frescor de quem iniciava os estudos, e ria mais que outra coisa quando estavam juntos. Conhecera Moura em um evento pela preservação de um velho casarão, que seria transformado em estacionamento. Atraíram-se pelos gostos em comum; em pouco tempo correspondiam-se; em tempo menor ainda, saíam juntos.

 “Às vezes me pergunto: por que filósofa, se com olhos verdes?”, Moura disse, rompendo o longo flerte que se estabelecera entre eles e aproveitando a deixa da garçonete que servia o café nesse instante. Ela o olhou, divertida, interessada, desejosa de saber o que viria depois. Deu um longo gole e deu sequência à brincadeira, a xícara em frente à boca: “Por que olhos verdes, se filósofa?”. — Lembra disso, a Eugênia — ia Moura começando a dizer, interrompido por ela: — Eugênia? Quem é Eugênia?
Moura sabia que a italianinha era muito, muito ciumenta.

–Aquela, que se era bela, por que era manca? Ou que sendo manca, por que era bela? E Moura contou, com aquele jeito empolgado com que sempre fala de autores e livros, que Eugênia era uma personagem machadiana que se prestava a uma aguda reflexão, carregada de ironia, sobre o modo pelo qual a sociedade privilegia a casca, a aparência das pessoas e não…
— Nossa, que coisa mais cruel — a italianinha o interrompeu. — Mas a propósito, tenho uma surpresa. Quer ver? Mas antes, me diga, que dia vamos ler juntos…
Foi a vez de Moura interrompê-la: “Surpresa, qual surpresa desta vez?”, Moura sabia que as surpresas dela eram, em geral,  resposta ao ciúme provocado.

Foi quando ela, num gesto gracioso e compenetrado, abaixou ligeiramente a cabeça, passou os dedos pelos olhos, primeiro o indicador da mão direita no olho direito, depois o indicador da mão esquerda no olho esquerdo, e, segurando na ponta dos dedos as lentes de
contato, olhou com firmeza na direção de Moura.

E ele viu, pela primeira vez, a cor real dos olhos da amada. Abriu e fechou a boca, como se não quisesse acreditar, quis sorrir, pôr a mão, beliscar, sei lá. Não fez nada disso, só ficou olhando. Não que não desconfiasse, ela já havia se referido vagamente a isso, ao uso das lentes de contato. Mas o que era verde, não era. O que era, verde não era.
–Duas jabuticabonas, dois olhos pretos, dois sóis negros –Moura disse por fim. E acrescentou: –São inacreditavelmente mais… (nesse momento o rapaz do funk irrompeu de novo na galeria, e o fez tão ruidosamente, que tornou-se momentaneamente inaudível a fala de Moura)…que os olhos anteriores. “De pigmentação escura ou de pigmentação verde, a íris dela vê o mundo de que cor?”, Moura deve ter se perguntado meio filosoficamente então, porque virou-se para ela, a italianinha dos olhos da noite, e disse, naquele seu jeito metafórico-subjetivo de dizer as coisas: “Mas manca é melhor que não-manca. Só não entendo por que…”.

Não pôde continuar a falar porque a italianinha, ao tempo em que guardava as lentes numa caixinha dentro da bolsa, o interrompeu, dizendo por entre um sorriso que exibia o branco mais maravilhoso dos dentes: “Tem mais surpresas. Quer ver o resto agora?”.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Moura se apaixona (ou: Verdes ou não, quem se importa?)

  1. Leandra Mendes

    Quero saber do resto da surpresa…kkkkk
    Moura se apaixonou pelos olhos verdes da Italianinha,ops lentes de contato.rs
    Adooorei!!
    Abs.

  2. Delícia de texto!! Me passatempo da tarde vai ser compor o resto da surpresa.

  3. Obrigado, Flavinha e Leandra, pelos “coments”, verdadeiros alentos a mim e a este espaço. Afinal, perguntaria o Moura, o que há de mais delicioso que percorrer essa rua de mão dupla entre escritor e leitor? rs. Abração em vcs!

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