Na garagem, com Beethoven

 

 

Falar, abrir o verbo, expor o que vai pela alma é uma atitude feminina, escuto com frequência. Escuto também que os homens falam menos, se abrem menos e por isso mesmo são mais tensos, estressados, enclausurados em suas encanações, incapazes de se mostrarem por inteiro, bombas prontas à explosão.

Bem, se isso é uma regra geral, não vale, in casu, para o Moura, nosso companheiro de viagens.

Sempre que o encontro, Moura tem falado e falado muito, além de declamar seus poemas, seus “acometimentos lítero-poéticos”, como ele os chama. E curioso é que sinto imenso interesse no que ele fala, embora o ache meio maluco, e um pouco mal humorado, para partilhar da opinião de vários de vocês, caros leitores, leitoras.

Outro dia veio com essa, após um encontro casual nosso à saída de um funeral. Sim, também morremos, nós, nossos amigos, conhecidos, parentes, vizinhos, cachorrinhos de estimação. Também morrem os amores, as esperanças, as rivalidades, o sol (eita poesia de quinta), as amizades. Bem, talvez não morram, definhem, apenas. Mas que digressão mais fúnebre, alguém vai dizer, que troço mais Família Addams! (ah, como era linda aquela Mortícia). Bem, volto ao encontro com o Moura, à saída do velório de um figurão político.

Haviam tocado a Marcha Fúnebre, aquele manjado movimento da sonata não tão famosa assim (não resisto a uma especulaçãozinha metida a filosófica: pode a parte superar o todo?) de Chopin, aquela do tan,tan,tantan, tan nan,nan, nannan, lembraram? Canto que é uma beleza… É realmente bonita, mas ninguém mais a escuta, associada que está com a iniludível das gentes. Pois bem, o Moura me puxa pela manga do terno e emenda:

— Você acha que essa rainha do carnaval baiano aí, disse-me, citando a famosa e recordista de vendas cantora, você acha que ela é melhor que Beethoven? Quis rir diante do inusitado da pergunta, mas como rir na frente dele poderia acionar seu mecanismo de vermelhidão (que os nossos leitores já sabem como funciona), preferi dizer a ele que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” e que…

“Você também é adepto da teoria de que gosto não se discute, não é? Gosto, lamenta-se, não é isso?” disse-me olhando nos olhos. E continuou: “Já lhe disse que comecei a gostar de Beethoven ainda pequeno, na garagem do apartamento onde morava com a família, e onde ficava uma eletrola, um toca-discos bem antigo, e no qual escutava os velhos LPs de meu pai. Um dia apareceu nas bancas de jornal uma coleção de música clássica e foi num desses que ouvi pela primeira vez a Quinta Sinfonia de Beethoven, tinha então sete ou oito anos, eu, não Beethoven, que já era poeirinha há séculos”. Moura estava contaminado pela cerimônia fúnebre: “Você já se perguntou quantos milhões de seres humanos vão virar poeirinha sem nunca terem ouvido um único acordezinho da Quinta?”.

Minha preferida é a Nona, Moura, comecei a dizer. Só comecei, porque ele retomou sua fala. Agora chovia fino e Moura abriu um imenso guarda-chuva preto, que me engoliu junto com meu amigo: “Desde o primeiro momento em que ouvi a Quinta, me apaixonei por ela. Um caso de amor escandaloso!”. Moura estava frenético.” Ouvia-a tanto, tanto, na solidão e penumbra da velha garagem, verdadeiro quarto de despejo e cacarecos, que os sulcos do disco foram virando valas”. E riu, coisa rara, o Moura rindo.

“Depois veio a paixão pelas outras, que fui descobrindo ao longo da adolescência. A Heróica, a Pastoral, a Nona… Com as sinfonias fiz um harém, paixões em sucessão e todas de uma vez. Deliciosa mistura de todos os vinhos em taça única! Maravilhado, encantado. Mal sabia eu o que estava por vir: as sonatas, os concertos para piano e orquestra…”.

A chuva apertava, eu já estava com meus braços encharcados, mas o Moura não se dava conta disso. Desta vez fui eu quem o puxou pela manga. Moura parou, de supetão: “E então, você acha a cantora, a carinha, melhor que Beethoven, não acha?Sabe por quê? Porque ela toca direto no seu ouvido, sem parar, e enquanto isso milhões vão-se embora sem nem saber quem foi o compositor da Luz do Luar”.

Peraí, Moura, eu disse. Adoro Beethoven e acho que existe sim uma diferença entre a arte e a cultura dos mass media, mas há também um fator subjetivo e…

Não consegui terminar. Moura largou-me na chuva, pulando uma poça e a rua, gritando para mim enquanto saltitava: “Vai chegar o dia em que a galera vai trocar a carinha da laje pelo carinha da garagem…”.

É maluco mesmo esse Moura… Alguém trocaria?

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