Meu conto de Natal

Havia um vulto atrás da janela.

Sempre há um vulto atrás da janela.

Sempre houve um.

Sim, ao longo de minha vida, sempre observei alguém espiando a rua, ou sabe-se lá o quê, por trás do vidro de uma janela. Não que isso se revelasse de modo explícito à minha observação. Antes, era uma descoberta gradativa, algo que vinha se impondo à consciência de maneira sutil, imperceptível a princípio, até ocupar toda a tela de minha mente e olhos.

Às vezes acontecia de eu estar parado no sinal, esperando passar o fluxo de pedestres, ou carros, e percorrer com o olhar distraído os prédios e casas ao meu redor. Também podia estar com o carro parado, namorando, ou falando ao celular, ou teclando, ou esperando alguém.

Mas andando a pé, caminhando, era que eu o encontrava mais amiúde. Aí é que ele aparece com mais frequência.

Ele, o vulto.

E sempre com o olhar esgazeado, triste, desesperançado. Sempre muito vivido, embora também por vezes adolescente. Sempre triste. Sempre sem distinção de gênero, ele, o vulto, ou ela, o vulto: ele ou ela, que importa? Importa que é o vulto, um vulto.

Tentem fazer a experiência. Parem o que estão fazendo e olhem ao seu redor. Duvido que não se deparem com alguém espiando a rua, que digo, espiando a si mesmos com o olhar voltado para a rua. Em geral, com a testa colada na vidraça; alguns também com o pescoço ereto em digna atitude, outros até com o rosto para fora da janela, os cotovelos apoiados sobre o patamar das dores do mundo.

O vulto não se confunde com o casual olhador da rua, aquele que a olha com satisfação, indiferença, ou por não ter motivo algum para isso.

O olhar do vulto atrás da janela é sempre um olhar intencional, carregado de busca, de desejo do encontro.

Encontro daquilo que foi perdido, busca daquilo que não retorna, intenção de reatar o sentido da vida.

O vulto não tem hora para aparecer: logo cedo, pela manhã, quando vamos trabalhar, ou fazer uma caminhada. À hora do almoço, ou à tardinha, quando o sol vai se pondo. À noite, quando estamos vendo novela. De madrugada, quando estamos dormindo.

O vulto na janela não dorme. O tempo parou para ele, as horas são um interminável arrastar-se, sem princípio, meio ou fim. O vulto não acorda, não cochila, não descansa, não morre.

O vulto morreu há tempos.

Morreu na vida perdida, na demissão irrevogável, nos pais que já não existem, nos filhos não nascidos, nos amigos que já se foram, no amor que não chegou, na infância não havida, na saudade sempre parida, nas flores emurchecidas, nas cores enegrecidas.

Como é sempre triste o vulto na janela!

Então, um dia desses, eu andava pela rua, entupida de gente fazendo compras, com um calor insuportável, o trânsito congestionado, as pessoas enlouquecidas pelo clima presenteador do Natal, quando esbarrei com o Moura, velho amigo de escola.

Como que adivinhando o rumo de meus pensamentos, Moura apontou-me uma senhora, discretamente situada em uma janelinha de um apartamento, que parecia olhar o movimento da rua sem vê-lo, o olhar perdido em algum infinito… Moura tem essa característica esquisita: costuma me encontrar e sai logo falando de algum assunto, como se estivéssemos já em um longo papo. Aí, lá pelas tantas é que se lembra de me cumprimentar e tal. Figuraça, esse Moura.

“Olha que mulher infeliz! Veja bem, só o vulto dela já sugere tristeza sem fundo. Coitada, não te dá vontade de ir ajudá-la, perguntar se podemos ajudar? Ihh, ela está chorando!”.

De fato, a mulher do olhar cada vez mais perdido, desamparada, agora chorava… Subitamente, no entanto, desapareceu da janela. Antes que pudéssemos conjeturar onde teria se enfiado a pobre dona, eis que ela aparece na rua, saindo da porta de seu prédio, o andar resoluto, não obstante a avançada idade. Não sei se disse para vocês que a janela ficava no primeiro andar.

E aí, o louco do Moura puxa-me pela manga, dirige-se à senhorinha e pergunta se podia ajudá-la, se estava triste por algum motivo que pudéssemos, de alguma maneira, amenizar.

Bem, acreditem se quiserem¸ ela abriu um largo sorriso, os olhinhos ainda brilhantes das lágrimas recentes, fez um carinho com a enrugada mãozinha na barba do Moura e disse: “Obrigada, meus filhos, pela gentileza, cada vez mais rara — como maçã sem bicho –, nos dias de hoje”. Deu uma risadinha e continuou: “Não poderia estar melhor, vejam! Lá vêm meus filhos e netos. Passam o Natal e o Ano Novo comigo. Estava preocupada porque não os via da minha janela, eles já deviam ter chegado. Mas quando os vi, não contive as lágrimas de alegria!”.

Fez uma pausa e arrematou: “É uma felicidade só, a casa (pequena, observação do narrador, para dar ares de contemporaneidade à prosa) cheia de gente, a mesa posta para a ceia (modesta), os presentes (lembrancinhas de R$ 1,99), os risos das crianças (uma barulhada infernal), o brinde (vinho de garrafão) e os cumprimentos à meia-noite, as crianças exultantes com os brinquedos novos. Ah, como estou feliz! Vejam, aí estão!”.

E correu a abraçá-los, os netos a pendurarem-se em seu frágil pescoço, os filhos a rodeando de mimos e carinhos, as noras e genros só sorrisos (sinceros como nota de US$ 3,00). Antes de entrar, ainda arrumou tempo para virar-se para nós, eu e Moura, ambos com cara de alface, e gritar com sua vozinha anciã: “Feliz Natal! Que o de vocês seja feliz como o meu, Feliz Natal!”.

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