Cinzas seminais

 

 

 

Ontem pela manhã estava atendendo uma pessoa no gabinete e o celular dela tocou, mas tocou tão alto, que o susto que a própria dona tomou conseguiu ser maior que o meu (e minha suave irritação ao compeli-la a atendê-lo). Ela se desculpou, desligando o aparelho, e comentou que desde criança se acostumara com a campainha alta dos telefones, eis que seus pais eram meio surdos e o telefone da casa de sua infância mais parecia uma charanga em sábado de carnaval.

 

 Pensei com meus botões que os telefones antigos, bem mais antigos, tinham o grave defeito de deixarem cair a linha, além do trabalho hercúleo de consegui-la junto à telefonista. E ia dizer que evoluímos, quando minha interlocutora disse que imaginou que o celular “não pegasse aqui, afinal não pega em tantos lugares”. Engoli meu comentário, pensando que, de fato, tem sido corriqueiro escutar queixas das pessoas sobre a ausência do sinal dos celulares em vários locais da cidade… Bem, evoluímos, pero no mucho.

 

Vencidos os dois parágrafos acima, vocês repararam como o itálico apareceu várias vezes? Vocês tinham realmente reparado, ou isso estava ali meio em stand by na consciência de vocês? O que vocês acham dele? Vocês gostam? Vocês costumam usá-lo? Vocês o acham assim meio fininho,desengonçado,ou aocontrário, sóbrio, elegante? Vocês viveriam sem ele, o itálico?

 

 Eu definitivamente não viveria. Meu reino por um itálico! Que sufoco é produzir um textinho, por mais despretensioso que seja, mesmo mensagem em celular, e não poder usar o itálico. Parece que mutilaram a humana capacidade da linguagem, que esfacelaram nossa ferramenta mais elementar de comunicação, que nos deram uma caneta que só escreve as palavras pela metade. Exagero, eu sei, vocês vão dizer. Mas acho que prefiro ser condenado a ter o vocabulário reduzido que a ficar sem ele.

 

 Como a história daquele político, doublé de poeta, ou o contrário, que, ao escrever um comentário sobre determinado acontecimento candente da vida de sua cidade, um incêndio descomunal, foi acometido de súbita crise de consciência – e de ofício – ao fazer o seu registro de forma poética. Estou falando de mim mesmo (e aqui acrescentaria, ao modo do linguajar twitteriano, o trejeito rsrs).

 

Como se tudo não fosse poético, devo ter pensado então.  Como se as palavras se segurassem, fiéis a esse ou àquele discurso. Como se os homens devessem ser julgados (devem ser entendidos!) pelo modo como falam e não pelo que falam. Como se o terno cinza da atividade política não pudesse ser também transformado em destroços e cinzas pelo poder da palavra. Do fogo da palavra.

 

Sim, porque tudo é, no fundo, uma questão de uso do itálico, tudo uma questão de colocação das palavras em seu contexto. Se digo, num momento de emoção em tempo real, – talvez a grande inovação positiva das redes sociais, essa de permitir a interação coletiva da emoção em tempo real – que estou torcendo para que as consequências sejam menores que as labaredas; os danos, menores que os enganos. E que o trágico, ao beirar o belo das cores das chamas lambendo a noite tensa, nos faça lembrar que tudo que é sólido literalmente desmancha no ar. Força e agradecimento aos profissionais que arriscam a própria pela vida alheia!, onde está a poesia, onde a não-poesia?

 

 E, no entanto, acreditem, quase morreu de bronquite, o pobre escriba, e quase foi ao linchamento público porque, político que é (está!), deu-se a condensar sua emoção partilhada em poesia. Poesia? Ah, dialético incêndio que, com suas labaredas, conseqüências, danos e enganos, sua comoção e sua emoção inflamada, nos trouxe, de suas cinzas, bem mais que lições: tornou-nos mais fraternos, mais próximos, mais irmanados pela preocupação com o outro.

 

 Não, definitivamente, não. Queimem tudo, deixem vir as cinzas. Mas não mexam com o itálico.

Combinados?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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