Pote de silicone para as pontas dos cabelos

 

Eu estava saindo de uma loja de cigarros, uma tabacaria, onde entrei para ver se achava um petit cohiba para presentear um amigo. Comia um chocolate, absorto, eu, não o chocolate, que não é dado a reflexões. E de repente chega o Moura, que vocês já conhecem.

É claro que vocês já repararam que na vida nem tudo que tem importância para uns tem para outros, não é mesmo? Acontece com freqüência vermos algumas pessoas extremamente aborrecidas com alguma coisa que para nós não faz o menor sentido. E vice-versa. Custamos a entender como a pessoa pode ter-se aborrecido tanto por tão pouco, mas não dizemos nada, temerosos de ofendê-la em seu aborrecimento ou em sua indignação.

“Come chocolates, come chocolates”, disse-me, bem humorado. E, após perguntar se estava bem e tal, contou-me o seguinte:

“Minha namorada, numa bela manhã de primavera, descobriu um fio de cabelo branco – o primeiro de sua existência – desolada em frente ao espelho, enquanto penteava-se”, começou a contar-me. E prosseguiu: “– Nunca vou pintar cabelo, ela disse resoluta, quase autoritária, com aquele jeito que as mulheres têm de sentenciar, transformando os ditos mais simples em máximas inquestionáveis. Eu a olhei, surpreso. Por um lado estava solidário com sua queixa íntima da implacabilidade do tempo, por outro pensando algo para confortar-lhe pela descoberta. E disse a ela que, aquilo que ela estava anunciando de modo tão solene, não tinha para mim a menor importância: pintar ou não o cabelo era uma questão secundária, tanto podia fazê-lo quanto não. Talvez um tonalizante, mais discreto, tentei brincar”.

Moura olhou-me para ver se eu estava prestando atenção no que ele contava. E pior é que não estava. Eu estava distraído, saboreando o chocolate, observando os cabelos, ou sua ausência, nos passantes da rua ao nosso redor. Como são eloquentes as cabeças das pessoas, homens e mulheres, e seus ornamentos, os externos, que os internos nem sempre são lá muito interessantes.

Penteados para lá, tranças pra cá, gominhas aqui e acolá, piranhas, travessas, coques, varetas, canetas (também escrevem os cabelos!), franjas, puxados, cacheados, arrepiados, alisados… Louros, pretos, castanhos, vermelhos, amarelos, verdes, multicoloridos. Com mechas, sem elas, com luzes (!), ou à média luz.  Estilo moicano, nuca batidinha, chanel, Príncipe Danilo (como passa o tempo nos cabelos!). Também os chapéus, boinas, lenços, burcas (vão completando a relação aí, leitoras e leitores). E o culto supremo ao deus cabelo, por caprichos da natureza ou de seus donos, que é a absoluta ausência deles nas lustrosas e orgulhosas carecas.

Moura tirou-me de meus pensamentos puxando-me pela manga da camisa, dizendo que ia ler um poema de sua autoria, inspirado pelo episódio que acabara de me relatar.

Autorizado por ele, transcrevo para vocês. Chama-se À Lua de Fel, de Roman Polanski e é dedicado Para José Henrique da Cruz, o Mutum:

A hérnia é pequena e a dor é grande

(eu deitado pensava, imobilizado)

 – Quebrei o pote de silicone para alisar as pontas do cabelo!

(ela em pé, no banheiro falava, preparando-se para sair).

 

 –Se eu fosse um pote de silicone

poderia quebrar, mas a vertebral não!

(eu disse. Senão a morte poria seus urubus de vigia)

Mas os lindos efeitos do pote agora são visíveis,

ela é que já não presta, a coluna.

 

 – Se a nossa coluna fosse como um pote

era só trocar por um mais forte, ainda ouvi

 (um mais novo? Um monte de vértebras novas?).

 

Ela sorriu com a perversidade da inocência,

balançou os cabelos negros com as pontas lisas lindas

 

e saiu.

 

 

Moura olhou mais uma vez para ver minha reação. Eu estava ainda tentando entender o poema que ele havia acabado de ler e enquanto repassava mentalmente suas palavras, não pronunciava nenhuma. “Pareces o Esteves da tabacaria, só que sem metafísica na alma e idéia nenhuma na cabeça” disse o meu amigo, citando o conhecido personagem de Pessoa. Lembrei-me de tê-lo encontrado em um romance recente do valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis, e eufórico disse para Moura: “Ah, ele aparece, o Esteves, no romance…”.

Mais não pude dizer porque Moura, cortando o ar com uma braçada, pôs-se a discorrer sobre um monte de coisas e concluiu agitado, acho que com versos do poeta português: “Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama. Mas acordamos e ele é opaco. Com cabelo, ou sem, pintado ou não, entendeu”?

E safou-se de minha resposta, atravessando, rápido, a rua.

O atendente da loja de cigarros saiu à porta, com cara de cansado, e cuspiu no chão.

 

 

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Uma libélula vermelha

 

“Se tiramos suas asas, vira uma pimenta? Uma pimenta rubra, se nela colocamos asas, vira uma libélula?”.

Assim me perguntou o Moura, nosso conhecido de infância, quando passou por mim na rua, sábado passado. “O que te perguntei”, continuou ele, “tirei de um haicai, um pequeno poema japonês, que li num livro da Cecília Meireles. Ganhei em um concurso de redação, na quinta série, tem tempo. Escolha o seu sonho. Ocupa um lugar querido na minha estante onde ficam meus favoritos. Edição rara, certamente só encontrável em sebos. Mas para mim tem um valor incalculável. Valor de uso, oposto ao valor de troca, como queria o velho Marx”, concluiu com aquele jeito professoral que às vezes assumia.

A pergunta do meu grande amigo, feita assim à queima-roupa, deixou-me meio aturdido, mas fez-me refletir sobre o que são as coisas e o que parecem ser. E o que definitivamente não são, nem serão, por maior que seja a licença poética.

 Não, nem tudo é o que parece ser.

Vocês já pensaram em como é importante tentar perceber o que há de verdade por trás das palavras, ser crítico em relação ao que é dito e não acreditar piamente em tudo que se diz? Explico-me: já repararam que nem sempre o discurso, a fala, o que se diz, corresponde de fato à realidade?

Sempre me incomodou o fato de as pessoas, os humanos seres, usarem do verbo para afirmar algo que, ou não existe, ou é literalmente oposto ao que é dito. E tudo com a maior pompa e circunstância, a maior cara de pau.

 Imaginem a troca de gentileza entre dois magnatas, sabidamente ladrões, que se encontram num jantar de gala, beneficente, frequentado pela alta sociedade: “Admiro muito sua integridade e honestidade. Todos nós sabemos que o seu patrimônio foi adquirido com muito trabalho e determinação”. E o outro, lisonjeado: “Obrigado, amigo. Você sabe que essa admiração é recíproca”.

Ou então pensem na conversa de dois políticos corruptos: “É emocionante o respeito que Vossa Excelência devota ao tesouro público”. “Mas que nada”, responde o outro, “Fomos eleitos para isso mesmo, guardar os recursos públicos com zelo. Cumprimos com nossa obrigação”.  

Tão ruim quanto isso é quando, em solenidades, os políticos fazem a leitura daqueles discursos imensos, repletos de chavões e onde  invariavelmente aparece uma ou mais citações de escritores famosos, normalmente poetas, mas também prosadores. Imagino como devem tremer no túmulo Drummond, Pessoa, Castro Alves, Rosa, Clarice, Machado, só para citar os preferidos na estatística da verborragia. O poeta português então é campeão! Aff, não dá mais para ouvir aqueles ótimos versos do “tudo vale a pena…”, ou “sou do tamanho do que vejo”, ou “o rio que passa pela minha aldeia”, ou “a lua alta brilha”. Tem inclusive o caso de um antigo político que, ao ler o discurso preparado pelo assessor, não reparou que havia um erro de digitação, e quando fez a leitura em noite elegante e repleta, citou com grande intimidade o poeta Fernando Ressoa… Tá ressoando até hoje.

Também é assim quando vemos algum profissional medíocre jactar-se de seu trabalho: “Tenho trabalhado com competência e seriedade. O meu trabalho, modéstia à parte, é uma referência para os outros”. Isso dito por um professor que ensina tudo errado, um médico que adoece o paciente, um engenheiro que usa areia no lugar do cimento… Ah, se os diplomas revelassem seus preços…

E o pastor, cujas ações na bolsa superam os oito dígitos, pedindo o voto franciscano de vida a seus fiéis – que devem seguir-lhe o exemplo de vida despojada – através das doações que devem fazer para as obras sociais da irmandade?

Vale também para a imprensa tendenciosa, aquela que noticia de acordo com seus interesses, modulando verdades, como se a verdade pudesse ser manipulada assim.

Quando ocorre algo dessa natureza, fico me perguntando se o leitor, ouvinte ou espectador, concede o benefício da dúvida à sua boa fé. Será que ele, em algum momento pensa, ao ver a simpática apresentadora do seu telejornal favorito, se o que ela está dizendo corresponde mesmo à realidade dos fatos?  Ou pelo menos, será que ele, crédulo e desarmado espectador, cidadão trabalhador, zeloso de seus direitos e em dia com seus impostos e donativos, será que ele deixa aparecer a pontinha do ponto de interrogação – ainda que ao modo da língua castelhana, assim ao contrário ¿  – em sua cabeça?

“Então”, Moura deu-me um tapinha na cabeça, “que pensas tu, pateta?” . E como sempre, sem esperar resposta, sumiu-se na rua, inquieto, elétrico, como a libélula da pergunta.

Se botar asa, vira pimenta? Se tirar, libélula? Não, que digo? Se tirar pimenta, asa, se vermelha, libélula? Também não é isso… Ihhh, o Moura arruma cada confusão…

 

 

 

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O sapato, o tanoeiro e o embornal

Será que todo mundo sabe o que é isso, um embornal? Melhor, vocês já usaram um embornal alguma vez na vida? Ainda: vocês já viram alguém com um? E a cara da pessoa, era de prazer ou contrariedade? Era grande ou pequeno, fino ou mais grosso? Ihhh, afinal, o que fazia a pessoa com esse troço?

Algumas coisas vão sendo preteridas pelo tempo, pelos homens, suas sociedades, usos e costumes. Algumas coisas são assim criadas para certos usos e para segmentos determinados das sociedades. É próprio do movimento da vida, da máquina do mundo, não é? Também assim na vida pessoal, quantos objetos já fizeram parte visceral de nosso ir e vir e hoje já nem nos lembramos de sua existência? Certo, os mais radicais vão dizer que acontece da mesma maneira com os amores passados…

Pois assim é. Vejam o caso do tanoeiro. Tanoeiro. Dito assim, podemos até pensar tratar-se de um tipo de planta, flor: “Meu bem, cheguei. Trouxe nosso vinho preferido para o jantar e um tanoeiro para enfeitar seus cabelos”. Imaginem a felicidade da amada. Talvez alguém pense que possa tratar-se de um requintado espécimen de iguaria, algo como a trufa branca: “Amor, veja o que encontrei para ti: um tanoeiro para você se regalar esta noite”. Não faltará quem veja no tanoeiro uma combinação de ingredientes naturais exóticos, último lançamento da indústria dos cosméticos para dar à sua pele um toque de seda: “Benhêêê, veja o que encontrei e trouxe para você passar em todo o corpo”. E que tal, tanoeiro como sinônimo de roupa, digamos, de baixo, nossa underwear? “Gata, você vai ficar deslumbrante com esse tanoeiro sob o vestido!”.

É, pessoal, coisas que já usamos tanto e que ficam pelo caminho. Ficam tão ficadas que perdem para nós toda a referência que um dia tiveram. Tanoeiro já foi profissão indispensável no Brasil oitocentista, acreditem. Um belo dum fazedor de barris e coisitas que tais! Profissional requisitado e essencial para aqueles tempos: “Vai um barril hoje aí, senhora?”. “Seu tanoeiro, por favor, leve à minha casa hoje à noite algumas canecas”. Ó tempos, ó costumes. Ô barril, ô chopps!

Outro dia, Moura, velho amigo e já conhecido de vocês, contava um pouco de sua vida na pequenina cidade do interior de Minas onde nascera e fizera os primeiros anos de estudo:

“Lembra-me bem do meu primeiro dia de aula na primeira série, tinha seis, ou sete anos. Escola pública, não havia nenhuma outra. Frequentavam-na tanto os filhos dos homens de bem da cidade, quanto os mais pobres. E então entrou na sala o Erenilo, filho de lavradores, vinha direto da zona rural, da roça. Chegou alto, olhos claros e inteligentes, cabelo bem penteado, parece até que molhado do banho recente. A  tiracolo trazia um embornal, limpinho, de cor clara, uma sacolinha onde botava seus cadernos e merenda. Mas o que me chamou atenção não foi tanto o embornal não, eu que usava uma bela pasta e mais linda merendeira. O que realmente me marcou foi quando percebi que ele estava descalço e assim permaneceu em todos os dias de aula,até quando saí da escola e da cidade, mudando-me para a capital”.

Moura falou do embornal com naturalidade e com naturalidade disse a ele que provavelmente essa é uma palavra de uso muito restrito e que. . .

“Restrito, como assim restrito?”, bradou ele, me interrompendo e já ficando vermelho. Já contei pra vocês, em outro texto, sobre essa particularidade do meu amigo, enrubescer, fosforescer, quando dizíamos alguma grande bobagem. “Todo mundo usa embornal hoje em dia, só que não usamos esse nome, entendeu? É como sentencia Umberto Eco (Moura além de um erudito é amante da literatura, então não vejam nenhuma afetação em suas citações, viu, gente?): A rosa permanece sendo rosa mesmo se não lhe chamam assim”.

Quis dizer a ele que já tinha visto isso em Shakespeare, se outro nome tivesse, ainda assim perfumada seria a rosa; e também em. . . mas Moura como sempre já lá se ia, bradando de longe: “De uso restrito é o Louboutin que a princesa usou no casamento inglês”. E berrou, dobrando a esquina, o pescoço meio virado em minha direção: “Você sabe o que é isso? Já usou alguma vez na vida? Já viu alguém com um? E a cara da pessoa, era de prazer ou de contrariedade?”.

Mais não ouvi porque Moura, estourando de vermelhidão, virou a esquina.

 

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Um prato só pimenta

Vocês já imaginaram, um prato delicioso composto de… pimenta pura?

Vamos juntos? Vamos lá? Então acompanhem-me: restaurante chique, da moda, em voga, digno de notinhas nas melhores colunas sociais, bombando mesmo, nas rodas, rodinhas e rodões. Chef famosíssimo, aprendizado na cozinha tal do hotel “le algum galicismo“, rodado na Europa e cozinha do Oriente, a bola da vez na e da alta gastronomia.

E não é que o famoso quem, querido dos cadernos b dos jornais de maior circulação, figurinha fácil nas revistas especializadas, pessoa simpaticíssima e protagonista de delicioso programa semanal na tv fechada, não é que sua reverendíssima sumidade nos diz que a moda agora é… comer pimenta pura! Pura, brava, virgem, selvagem, curtida em nitroglicerina! Prato de nome pomposo, alguma coisa tipo Ardência au Poivre ou  Chili à Sauce Ardida.

“Mas espera aí, calma, que não é assim a toque de caixa não”, vocês me interrompem com toda razão. “O prato que o Chef nos apresenta é sim, de pimenta pura, mas tem muitos outros ingredientes exóticos, além do aproveitamento moderníssimo de ingredientes da cozinha popular, nada mais up-to-date, olhe só, colocar alguns verdinhos nascidos no quintal e um bom apanhado da cozinha regional”.

Está bem, gente, posso ter posto muita pimenta no texto, mas concordem comigo que pimenta é acessório e não deve substituir o prato ao qual ela deve prestar seus serviços, vassala poderosa e insubmissa que é, realçando as virtudes de seu amo e senhor, o prato principal.

“Veja bem, seu cronista míope”(obrigado pelo cronista, hem pessoal?), vocês insistem, “deixe de lado sua ironia insossa e atente para o fato simples que o prato-pimenta é ousado mesmo, revolucionário, vanguardista, e certamente muito acima de uma mentalidade provinciana como a sua”. E concluem, numa versão esquisita do dito oswaldiano: “Você e a massa ainda comerão desse fino biscoito-de-pimenta-pura”.

Puxa, confesso que não esperava que vocês ficassem tão irados! Só estou pontuando que, à modo de Lima Barreto com seu homem que falava javanês, é preciso ter um olhar crítico (querem melhor óculos que este, para perto e para longe?) com os modismos e sobretudo com seu efeito avassalador e homogeneizador das práticas e costumes sociais. Já houve época em que bondosas e gordas senhoras que faziam chazinhos caseiros, curativos e eficientes, foram torradas em fogo santo, acusadas de bruxaria.

É preciso sempre tomar cuidado com a onda e seu efeito-que-a-todos-arrasta. A onda que derruba, ridicularizando, o tolo incauto que ousa discordar e a enfrenta de peito aberto.

E, no entanto, creiam-me, o essencial mesmo é remar contra a maré. Sorte nossa (e nossa aqui é sinônimo da humanidade) que tantos tenham ousado – e ainda hoje há quem tenha coragem para fazê-lo – desafiar a onda e, mesmo derrubados por ela, e por isso mesmo, nos incitam a repetir seu gesto e exemplo, em um mundo onde a moda é surfar, louro e bonitão, com prancha tribal sob os pés e o aplauso de todos, ou quase.

Tudo bem que há quem goste; eu mesmo não dispenso uma pimentinha em uma boa e light feijoada, ou mesmo a raiz-forte dos sushis e sashimis. Ou a calabresa, a malagueta, fogo puro, de fazer estourar a boca do balão, e a do estômago, além de outras bocas assemelhadas e menos nobres. Sem falar no sabor e prazer inigualáveis que ela introduz nos relacionamentos amorosos, seja com aquela pontinha de pimenta verde do ciúme, seja com aquele pontiagudo avermelhado do dedo de moça. Ahh, mas experimentem exagerar na dose para ver se não arde e muito, tanto à entrada e principalmente à saída dos tubos sentimentais.

Sim, vamos combinar que a pimenta é mesmo indispensável como ingrediente… apimentador! Mas se passar disso, pessoal, estraga.

Vocês comeriam, saboreando – sorriso de deleite e êxtase nos lábios – um prato maravilhoso de pura pimenta pura?

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Ir ao cinema e comer abóbora

Encontro um amigo de muitos anos, o Moura, distraídos ambos, andando pela rua. Não o via já há tempos e reparo que trazia – na verdade o lia enquanto andava – um livro nas mãos. Já disse a vocês que sou fascinado pelos livros e mais ainda quando os vejo sendo lidos. Procuro logo saber qual é, autor, título, edição, apreciar a capa, ler a orelha e a contracapa, folhear as páginas, sentir-lhe o cheiro.

Parece que era um romance. Começamos a conversar. Antes que o pegasse, ou sobre ele indagasse, Moura, velho amigo, fecha o livro, coloca-o sob a axila esquerda, põe-me a mão no ombro e diz que estava gostando muito da leitura. Animado, falante, gesticulando, abre novamente o livro e, sem dar-me tempo para nada falar, reproduz em voz alta um trecho:

“Então ela disse, o olhar como a superfície de um lago sem vento, “não faltarão oportunidades de fazermos juntos algo tão prosaico”. Mandou-me um beijo com um ligeiro movimento de lábios e partiu. Partiu mesmo, quero dizer, foi-se e nunca mais a vi, eu que a choro cada segundo desde então. E desde então faço solitariamente o algo tão prosaico a que ela se referiu. Ir ao cinema. Vocês acham que ir ao cinema é algo tão prosaico? Refiro-me não ao fato de ir ao cinema, mas à emoção que toma conta de nós no escurinho da sala, no contato com a plasticidade sonora do filme, na imersão daquele mundo, seus personagens e situações. O efeito que o filme nos opera não contrasta com o prosaísmo da compra do ingresso?”. Concluiu a leitura com um fechar ruidoso do volume, novamente engavetado na axila esquerda.

“E então”, Moura, me pergunta, “você o que pensa?”. E antes que eu pudesse responder, emenda: “eu acho que ir ao cinema é prosaico e é profundo”.

Tomei fôlego e disse-lhe que necessariamente uma coisa não tem que se opor à outra, mas que ir ao cinema é ato simples, e ainda melhor se bem acompanhado pela namorada, ou em sua falta, pelo menos por um bom saco de pipoca com guaraná.  Sim, é ato simples, embora um pouco diferente de comprar pão ou ir ao supermercado. Afinal você não vai só comprar alguma coisa, mas vai ver um filme, distrair-se, passar o tempo.

“Como assim ato simples? Como assim passar o tempo?”  Moura estava ficando vermelho, característica sua desde os tempos de colégio. Se se irritava, avermelhava.  À época, um de nós criou o termo “fosforescer” para indicar esse rubor, essa vermelhidão indignada que tomava conta de seu rosto quando atentávamos contra sua inteligência com alguma abobrinha. (Grande Moura! Como faz falta sua vermelhidão no nosso próprio rosto em tantos momentos da vida em que somos ou acovardados ou convenientes comedores de abobrinha! Aliás, a humanidade deveria ser mesmo obesa se o critério fosse a ingestão de abobrinhas, pobre delas, tão vilipendiadas e nem tão ruins assim, se ingeridas à milanesa, não acham?).

 Bem, Moura, vermelhão, disse-me que eu estava redondamente enganado, que o cinema é arte temporal, mas não para passar o tempo; antes, para para-lo!  E blá blá blá. Como fala o Moura!

 “Por isso é prosaico e é profundo”, tornou ele, “porque é ato simples que abre portas nem sempre simples”.

 Concordei sinceramente com ele, disse-lhe que nunca havia pensado nesses termos, mas que a personagem do romance – ou que diabos fosse aquele livro – estava certa, que o cinema, entretenimento tão à mão, pode nos proporcionar um efeito muito além àquele que a simples compra do ingresso permite supor. Para o bem ou para o mal, se o filme for muito ruim, ri-me. E arrematei, sério: de fato há um contraste entre ir ao cinema e dele sair.

Fez um movimento com a boca (um sorriso, desdém, um esgar?). Despediu-se no supetão, pôs-se a correr para pegar um ônibus, empurrando uns e outros em sua carreira. Desde então não mais o vi. Como as personagens do romance no trecho que ele leu e que não consegui ver qual era. Nem o trecho, nem o romance – ou que diabos fosse aquele livro.

 Vocês acham ruim abobrinha à milanesa?

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Retratos desbotados e os que ainda não tiramos

 

Cuidado para a representação da realidade não substituir a experiência direta!

Terei começado filosofando, leitores e leitoras amigos? Ou antes, estou falando de sua, minha, nossa vida e hábitos?

 É assim, com a frase exclamativa que abre este texto, que um velho companheiro de viagens costuma se manifestar quando vê a turistada toda naquele movimento frenético de tirar fotos e fotos, se esquecendo de apreciar o próprio objeto delas, fotos. Acontece da pessoa nem se preocupar muito em vivenciar o instante que desfruta, ansiosa para o melhor ângulo, será que fiquei bem? Há aqueles que na verdade só vão ver onde estiveram quando regressam a casa e baixam as fotos para o computador, mas estive aqui mesmo? Nem me lembro deste lugar…

Turistada é termo que uso aqui sem conotação pejorativa. Só mesmo para indicar o conjunto de felizes, barulhentos, despreocupados e por vezes incômodos apreciadores do lugar alheio. Porque todos somos assim quando em viagem de turismo, não somos? Quem tem alguma outra preocupação, além de perder a hora para entrar no museu, se tem ou não lugar, ou chegar a tempo para o embarque? Se as finanças vão mal, ou a rotina do trabalho recomeça amanhã, ou os pais idosos que devem ser levados ao médico tão logo chegue, esqueça! Nada a preocupar os alegres viajantes.

Nada contra o hábito – e a arte – da fotografia. Tem sempre a vontade do registro, é natural. A vontade da perpetuação, ainda que em papel, ou em bits, quem não a tem? Vanitas vanitatum et omnia vanitas sentenciam os latinos e quem ousa discordar deles? Vaidade das vaidades, não é tudo afinal uma questão de vaidade? Quem não gosta da sensação de imortalidade proporcionada pelo retrato, esse instantâneo da eternidade, esse retardador da passagem do tempo, essa fonte inesgotável da juventude? O problema é que, no mundo cada vez mais cultor da aparência, e sobretudo da aparência fotográfica, no qual vivemos, corremos o risco de, sem percebermos, substituirmos a contemplação da coisa pela coisa em si, para usar um palavriado caro à vã filosofia. Vamos combinar que não são apenas as propagandas de hoteis duvidosos, aquelas que mostram uma piscina imensa e maravilhosa (que depois descobrimos ser algo como uma banheira azul), ou a suíte, espaçosa, maravilhosa (que depois também descobrimos mal caber um dos dois). Nas redes sociais procuramos mostrar nosso melhor sorriso e dentadura perfeita, mesmo que nos faltem os quatro incisivos. Pare aí, escuto vocês me dizendo, mas quem disse que isso é um problema? A vaidade, vocês continuam, não é necessariamente ruim, apenas o seu excesso. No mais, vocês concluem, ela é até positiva, interage com a nossa autoestima e mostra preocupação com o semelhante.

Está bem, não discordo totalmente. Vejam se também concordam parcialmente comigo:

O ato de tirar uma foto tem um peso incalculável, seja para quem a tira, que responsabilidade, se ficar ruim, levo um palavrão, seja para quem posa. Acontece com cada um de nós, não sei se já repararam. Principalmente se estamos com uma câmera novinha, comprada justamente para aquela viagem. Imagina quando os amigos virem onde estive; ah, o que fica da vida são as lembranças registradas nas fotos; esta vai para o plano de fundo da área de trabalho do meu notebook; ficou linda, posto no facebook e aquele cachorro vai pedir para voltar pra mim no dia seguinte… Quem pode saber o que se passa na cabeça do fotografado naquele milésimo de segundo da abertura do diafragma? Acontece algo semelhante com o álbum da infância dos filhos (ou da sua própria, se não os tem), da primeira comunhão, do namoro (com ou sem “s”), da formatura (também com ou sem “s”), do casamento (cada vez mais com “s”), das festas com os amigos…

Ah, não, que isso? Tirar foto é ato solene, devia ser precedido da execução de hino nacional. Porque o que está em jogo, no instante de tirá-la e depois na própria foto, é o nosso enraizamento na existência, nossa fixação na realidade, nossa prova de que naquele take capturamos a fugacidade da vida, driblamos a sua transitoriedade. Nossa felicidade ali estampada nos mostra que sim, somos felizes, que a vida vale a pena, olha que sorriso lindo! A foto não mente, está ali para romper com a superficialidade e automaticidade do cotidiano. Para reorientar e renovar nosso olhar, gasto pela rotina.

É. Com ela conseguimos deter a passagem inexorável das horas (nesse mundo fluido e líquido, como quer o autor famoso). Com ela, anos depois, nos afundamos na poltrona de nossa melancolia, como cantou um dia o poeta, e admiramos a pujança de nossos melhores dias. Afagamos a memória acre-doce da saudade.

Ah, mas querem saber?

Os melhores não são os retratos desbotados do velho álbum. São os que ainda vamos tirar.

A melhor foto é aquela que ainda não tiramos.

 

 

 

 

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Pra que serve isso mesmo?

O menino fez a pergunta à mãe, assim, com a sem-cerimônia que só a pequena idade permite.

É claro que, ao longo da vida, aprendemos como também ser sem-cerimoniosos, sobretudo quando queremos chocar, causar certo rebuliço, ou desconforto, ou simplesmente provocar o riso nos que estão à nossa volta. Mas nada dessa atitude empenhada da maturidade tem a espontaneidade das crianças, naquele misto de ingenuidade e nem tanta ingenuidade assim que só os miúdos têm.

O museu estava cheio, as pessoas todas muito encasacadas, a despeito do aquecimento, um tanto defeituoso aquele dia. Fazia frio e muito. Estudantes de arte, professores, homens com farto ar intelectual, mulheres chiques, turistas diversos, curiosos, uma fauna fabulosa e interessada perambulava pelos salões, subindo e descendo os andares da centenária construção.

Na nave central, concorrida por exibir a famosa tela do famoso pintor, o acúmulo de pessoas era maior, maior o burburinho, maior a concentração de todos. Uma excitação nos gestos, olhares, nos movimentos de pescoço e cabeça. Até na quietude daqueles que se concentravam, alguns interminavelmente, na contemplação da grande obra, havia algo de elétrico.

E a voz do menino ecoou clara, alta, aguda, parecendo pairar sob a imensa abóbada do salão. O menino e sua pergunta quebrando a solenidade daquele local solene.

“Espera ai”, vocês vão dizer, “essa concepção de museu como local solene, é coisa do passado. A tendência atual é encarar o museu como um espaço ativo, acolhedor, crítico e mesmo dessacralizador do seu próprio conteúdo”, vocês vão continuar me corrigindo. Tá bem, dou-me por vencido, mas a pergunta do menino não estava nem aí para nada disso. E a mãe, dividida, sem saber se reprimia o filho, se sorria levemente buscando simpatia, se dissimulava, se olhava para o lado com ar de “quem é a mãe desse pestinha, que está me acompanhando desde a entrada não sei por quê”.

Houve um momento de incômodo silêncio, de pausa na normalidade das convenções. Houve uma volta à realidade lá de fora e todos se lembraram do mundo pouco artístico que sempre nos aguarda à porta de saída.

Como se o hiato que o museu nos proporciona, aquela sadia imersão em tantas maravilhas (algumas nem tanto, é verdade) produzidas pelo engenho humano, tivesse repentinamente acabado. E tudo porque o menino fez uma pergunta com a voz alta da naturalidade que nossas necessárias normas de convívio não permitem.

Cara feia, balançar de cabeça, olhar desaprovador, comentários furtivos, pigarros. Todo esse arsenal de condenação foi usado de modo impiedoso contra a mãe, a essa altura fonte de todo o mal do mundo, das crianças abandonadas ao flagelo das drogas, essas mães que não sabem educar os filhos; é por isso que o mundo está perdido; ah, a alta inflacionária

Teve um que riu. Um meio doidinho, via-se pela cara e jeito. Mas foi o único, porque todos os outros condenamos aquela má educação.

Tudo porque, contrariando nossa concentração, nosso enlevamento, nossa profunda e respeitável autoimagem de admiradores de nosso próprio gênio, uma criança fez uma pergunta à mãe. E nos perturbou, iluminados expectadores de nossa grande arte.

Confesso que não sei o que o menino perguntou, não deu para ouvi-lo, só a massa sonora e alegre de suas palavras. Mas já que chegamos até aqui, na comunhão paciente desse texto, é tempo de perguntar, leitor e leitora amigos: pra que serve isso mesmo?

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