Passar café e a alma

Gente, passar um café, ao levantar, manhã cedinho, e sentir seu aroma se espraiando pela casa pode ser o melhor antídoto contra um banzo amoroso ou uma derrapada depressiva. Um grande animador de espírito, melhor que qualquer comprimido jamais aportado às prateleiras de nossa ansiedade. Querem ver?

Eis aí a experiência de Moura, aguardando ansioso por notícias da namorada, após briga feia. Moura, nosso conhecido, faz um relato em primeira pessoa à modo de ficção e eu o publico com a devida aquiescência de meu amigo (“Você não cansa de me publicar não? Público é você, não eu”).

Vai lá, Moura, pega a palavra:

“Ao acordar, nem cedo, nem tarde, na manhã de segunda-feira, nublada, chuvosa, pensei: que faço, se não encontrar no celular sinal de vida dela? Sinal de vida, em tempos atuais, quer dizer: um SMS, um e-mail, um post no twitter ou no facebook (tudo bem, no velho orkut), uma ligação perdida que seja. Ao menos uma frase, ainda que curtinha, no MSN, isso ainda existe?

Nada.

Imagine-se você, querida leitora, amigo leitor, na situação: a telinha te encarando, sem um iconezinho de mensagem, uma cartinha, uma linhazinha azul no e-mail. Nada. A tela fria, impassível.

Impossível, você pensa. Alguma coisa deve estar errada. E você refaz todas as operações de descarrego novamente: nenhuma mensagem nova, nenhum sms… Será que esse troço tá funcionando, você duvida, deixa testar: alô, mãe, tá, tá tudo bem sim, liguei só para ver se tava funcionando, beijão.

É, nada, nenhum sinal de vida! E aí? Você ainda nem escovou os dentes, o dia inteiro pela frente… Segunda-feira corpulenta, cinzenta, comprida, infinda…

Então como se estivesse no piloto automático você vai para a cozinha e começa a ferver água. Na chaleira. Como nossos pais. Escalda a garrafa térmica, essa teimosa que sempre nos contraria, esfriando o seu interior para não aquecer o nosso. Monta o suporte para o filtro de papel. E começa, triunfal, a derramar a água sobre o pó de café (o pó da derrota, você pensa, o pó da dissolução, o pó para o qual havemos de voltar… Cruzes! amantes em decepção são sempre mórbidos assim?).

Passar café. Tem-se a sensação de que o mundo, ao ser feito, não levou mais que o tempo desse breve ritual iniciado com a fervura da água. Sim, porque a alma, essa ferve desde a ruptura dos amantes e quanto mais ferve mais nos evapora.

Passar café. Imaginem se no lugar da maçã o fruto da sedução fosse o café. Adão e Eva com grãos para moer, água para aquecer, suporte para coar… Sei não, acho que não ia rolar. Bem, talvez depois. Que tal reeditar o dito atribuído a Brigitte Bardot? Uma moída antes, uma fervida durante, um café depois.

Bem e aí? Você estava passando a água fervente pelo pó. Bem, aí que, aos poucos, mas logo ganhando volume, vem a invasão do perfumado aroma em nossas narinas. E logo ali está o café pronto, obra completa, ópera aberta! Um café forte, revigorante, energético, espelho do que você quer para si mesmo. Sim, você foi capaz. Você realizou a proeza de driblar sua angústia amorosa e iniciar sua jornada diária! Veja bem: você a iniciou não como se nada tivesse acontecido, MAS COMO SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO! Crucial diferença. Ah, vitória das vitórias, aquela ingrata (ou aquele ingrato, minha prezada leitora) não esperava por isso! Passei um café, que digo, passei O CAFÉ!

E pode parecer pretensioso, mas para você foi como construir uma estação espacial, sozinho e flutuando no espaço, com aquela cordinha que liga o astronauta à nave-mãe, esgarçando, arrebentando, ficando fininha, pronta para te deixar para sempre perdido no universo… Ah, medonha metáfora dos amores em desalinho.

Bem, se por perto tiver um radinho… Ah, se a Rosa esqueceu seu radinho na tábua de passar roupa e você vai lá e o liga… Ah, aí você abre um largo sorriso na boca interna de seu ser, ao som aleatório do radinho de pilha (se for um pagodão bem dramático, falando da volta por cima sobre aquela cachorra, melhor ainda). E você se diz, indo para o banheiro, finalmente forte o suficiente para escovar os dentes: pode vir, segunda-feira, e todas as feiras da semana. Passei o café, yes, I can!”

Eis aí o relato do Moura, vocês concordam com ele? Esse cara… Bem, Moura, passar o café ajuda a superar o desatino amoroso, aprendemos. Também moer a alma, escaldá-la, tudo bem. Mas pagodão…

E nosso amigo também se esqueceu de contar um pequeno detalhe: ele não bebe café…

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1 comentário

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Uma resposta para “Passar café e a alma

  1. Pensei que ele bebesse um café expresso, ou “caffè espresso” pra combinar com a italianinha… rs

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