Feira livre, limpeza de pele e coração

Moura, rosto reluzente de limpo, com uns pontos avermelhados, parecendo um pouco inchados, dizia, com aquele seu jeito de enunciar as coisas mais simples como verdades universais: — Fiz uma quando fui conhecê-la, nada mais justo que fizesse outra agora, ao terminarmos.

Pisquei uma e duas vezes, como em geral faço quando escuto algo que não pego de imediato, mas como Moura apontava para o próprio rosto enquanto falava, concluí que ele se referia à limpeza de pele.

Vocês devem ter reparado — como eu — que Moura andou meio sumido. Na verdade, até reencontrá-lo nesta manhã de domingo, não fazia ideia do paradeiro de nosso amigo.

— Bem, ficou mais leve — brinquei, fazendo referência à limpeza do rosto. — Mas o que isso tem a ver com conhecer e terminar com ela?

— Ora — Moura fuzilou-me com o olhar –, óbvio. Se funcionou para o início, por que não funcionaria para o fim?

Olhei bem para seus olhos para ver se captava neles alguma galhofa, algum humor, mas não, Moura falava sério. Fiz-me igualmente sério: — É como um rito? Um rito de passagem? Uma forma simbólica para ajudar na superação de…

Rites de passage, repetiu em francês o culto Moura, me interrompendo. Sua voz rascante (pensaram no locutor da TV, quando se refere ao Leo Batista, amantes do futebol? risos) trovejou por sobre o burburinho geral: — Você disse algo certo, não tinha pensado nisso, mas é verdade. Rites de passage. Um batismo, um enterro, os dois juntos, continuou com o olhar perdido. Súbito, virou-se, pegando um jiló, vários deles, e apontou-os em minha direção, como dardos de ponta curva, e murcha: — Você sabe como se escolhe jiló? Sabe? Não basta apertar pra ver se estão duros e se prestam. Jiló não é como gente e se não tem osso, também não tem emoção.

Moura deve ter enlouquecido, pensei comigo mesmo. A dor da separação deve ter afetado seus miolos. Acho que não falei para vocês que estávamos na feira da Avenida Brasil, gente pra todo lado, a turma das barracas trabalhando febril para atender a toda a clientela. Encontrei-o aí por acaso, enquanto escolhia manjericão fresco para um pesto para a pasta do almoço…

Mas Moura já havia pagado os jilós e, sem esperar minha reposta, caminhava rápido para outra barraca de legumes. Belas cenouras, berrantes beterrabas, austeros pepinos…
— Ah, esses se deve comer cru, disse para mim, sob o olhar curioso do feirante. E continuou a falar, enquanto escolhia com capricho o que ia levar: — Foi tudo tão rápido quanto comer cru, como dizem que o apressado faz. Mas tudo muito saboroso, como só a degustação apaixonada, in natura, permite…

Moura estava ficando daquele jeito que conhecemos, quando começa a falar como se estivesse em transe. — Acredita você que, no Porto, serviram-me o amor como dobrada fria?

Estávamos agora em frente à barraca de carnes, um imenso balcão frigorífico que mais parecia uma casa de horrores. Imagino que quem ouvisse aquilo pensaria que meu amigo estava realmente ruim da cabeça. Ou do coração, vá lá, mas ruim de qualquer jeito. O olhar do rapaz do balcão disse tudo, quando Moura repetiu: — Dobrada. Dobradinha. E era à moda do Porto. O senhor já viu alguém servir dobrada fria?

Moura havia estado de fato em Portugal, no ano anterior, e havia feito um roteiro ao sabor de suas referências culturais e literárias, e as afetivas e pessoais, se é que não se confundem todas, segundo penso. Sem dúvida essa é sempre a melhor viagem na viagem.

O moço do balcão riu, entregando o pacote com as carnes e dizendo que fria não dava para comer. Moura, trocando um olhar cúmplice comigo, já agora se divertia, falando como se somente nós dois ali conhecêssemos o poema de Fernando Pessoa, cujos versos repetia: — E ainda impacientaram-se comigo, no restaurante. Ah, nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Mas se pedi amor, porque serviram-me dobrada fria?

Moura deu o dinheiro ao rapaz, que agora não sabia se ria ou não, visivelmente achando que Moura era mesmo maluco. E certamente não teve mais dúvida quando ele, carregado de sacolas, esbarrando nas pessoas, empurrando a multidão, enviesou aos trancos e barrancos por uma ruazinha lateral em busca de um táxi, o rosto claro avermelhado pelo sol.

E, já quase sumindo de nossas vistas, em meio ao seu tumultuado percurso, berrou para mim, para nós, e para quem mais quisesse ouvi-lo: — Ficou bom o meu rosto? Tá dando pra disfarçar? Fiz uma antes, precisava fazer uma depois. Mas se pedi amor, por que é que me serviram dobrada fria? E era à moda do Porto, ainda repetiu, desaparecendo de vez.

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Uma resposta para “Feira livre, limpeza de pele e coração

  1. “Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem…”

    Acredito que a dobrada estivesse fria pois para Álvaro de Campos o amor chegou tarde demais e ele não conseguiu concretizá-lo. Muito triste…

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